RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e arranjo por Júlio Marques Mota

A crise europeia e o papel do sistema financeiro

Intervenção de Vítor Constâncio, Vice-Presidente do Banco Central Europeu na Conferência no Banco da Grécia sobre “ A crise na zona euro”

Atenas, 23 Maio de 2013

PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)

A correcção dos desequilíbrios macroeconómicos e orçamentais 

Mesmo que o principal elemento condutor da crise tenha sido inicialmente localizado no sector bancário, os desequilíbrios orçamentais e macroeconómicos que surgiram como seu resultado são reais e têm de ser corrigidos. Embora o novo quadro de governança que acabamos de descrever possa ajudar, uma contribuição vital deve ter de ocorrer ao nível dos Estados-membros tomados individualmente. Um esforço sustentado para corrigir os desequilíbrios económicos e financeiros é então necessariamente acompanhado de reformas estruturais que irão melhorar as perspectivas de crescimento. Felizmente, um tal esforço já foi feito por vários países e o ajuste alcançado é em muitos aspectos bastante significativo.

constâncio - XXIII [Slide 5: Ajustamento das finanças públicas nos países em dificuldade]

Os desequilíbrios orçamentais

Desde a eclosão da crise da dívida soberana, a maioria dos países, nomeadamente os países em extrema dificuldade, têm posto em prática grandes esforços de ajustamento orçamental. Com base nas Previsões Económicas da Primavera 2013 da Comissão Europeia, a Grécia melhorou o seu saldo primário estrutural em mais de 10,6 pontos percentuais entre 2009 e 2012. A Irlanda (6.6), Portugal (5.7) e Itália (3.1) têm também realizado esforços substanciais de ajustamento, que estão bem acima dos 2,2 pontos percentuais que é a média na zona euro. A Espanha está perto da média. No entanto, ainda são necessários esforços na maioria dos países para fazer com que os rácios da dívida pública se situem num nível mais sustentável, também tendo em conta os desafios a longo prazo, incluindo o do envelhecimento.

constâncio - XXIV [Slide 6: Reformas relativas à idade relacionadas com a despesa até 2060]

Os elevados e crescentes custos orçamentais de longo prazo relacionados com a idade (que incluem as pensões, saúde e os custos dos cuidados de longo prazo, assim como as mudanças nos subsídio de desemprego e as despesas de educação) colocam um fardo sobre as finanças públicas a longo prazo. Sob o pressuposto de não haver mudança de políticas, ou seja, assumindo que não serão realizadas mais reformas nas pensões, o Relatório da Comissão sobre o Envelhecimento [5] projecta os totais nos gastos públicos relacionados com a idade a aumentarem, em média, 3,6% do PIB na zona euro entre 2010 e 2060, dos quais 1,4% do PIB estará relacionado com as despesas com pensões. No entanto, é precisamente no domínio das reformas para conter o peso a longo prazo do envelhecimento da população sobre os gastos públicos que os países sob forte pressão já fizeram ajustamentos. A Itália e Portugal, por exemplo, têm projectado aumentos insignificantes nas despesas relacionadas com a idade. Outros países em dificuldade como a Grécia, Espanha e Irlanda já estão num grupo de países classificados como sendo de risco médio, enquanto em sete outros países da zona euro, nomeadamente a Finlândia, Eslováquia, Malta, Chipre, Bélgica, Eslovénia e Luxemburgo, a despesa deverá aumentar em mais de 6%.

constâncio - XXV

[Slide 7: Competitividade dos países em dificuldade[1]]

Desequilíbrios macroeconómicos

Voltando-nos para o ajustamento na competitividade, medida pela taxa de câmbio real  e calculada esta a partir dos custos relativos em trabalho, os progressos têm sido significativos em termos de melhoria desde 2008 e já mais do que compensaram as perdas acumuladas desde 1999. Os países melhoraram a sua posição de competitividade, quer tanto em relação ao resto do mundo quer ainda face à zona euro. De acordo com os indicadores harmonizados de competitividade com base em custos laborais unitários, a Irlanda teve o ajustamento mais forte (-19% desde 2008), enquanto a Itália fica com uma variação vizinha de zero e apresenta-se com o ajustamento mais limitado entre os países em dificuldades. A Grécia (-9%), a Espanha (-9.5%) e Portugal (-6.6%) registam melhorias significativas.

constâncio - XXVI

[Slide 8: Evolução da Balança Corrente desde 1999]
(continua)

[1]Nota de Tradução. Para efeitos de análise comparada em termos de competitividade entre dois países, utiliza-se normalmente a taxa de câmbio real expressa esta pela taxa de câmbio nominal duplamente deflacionada, não pelos níveis gerais de preços como habitualmente se faz quando se querem comparar relações quanto à evolução relativa dos rendimentos ou da produção entre os países em termos reais, mas sim deflacionada pelos custos de trabalho unitários. Seja wi o custo unitário do trabalho de um país i pertencente à zona euro, seja w* o custo unitário no estrangeiro. Aqui, por estrangeiro pode entender-se o conjunto dos restantes países pertencentes à zona euro, pode ser um outro país da zona euro, e em ambos os casos a taxa de câmbio nominal é fixa e igual 1, ou pode ainda entender-se o conjunto dos seus principais parceiros comerciais, sendo neste caso a taxa de câmbio nominal dada pela relação do euro contra o dólar. Na análise da competitividade pela via taxa de câmbio real, esta é então expressa por E=(Rs wi)/w* e em que Rs significa a quantidade de moeda estrangeira por unidade euro. A taxa de câmbio real E aumenta quando: Rs sobe, ou seja, quando o euro fica mais caro; wi sobe, ou seja, quando o custo unitário do trabalho no país i aumenta; w* diminui, ou seja, quando o custo unitário do trabalho do país estrangeiro desce. Quando estas variações acontecerem e neste sentido o espaço nacional perde assim competitividade. Inversamente, quando as variações acontecerem em sentido contrário, E desce e o espaço nacional ganha competitividade. Pelo lado do estrangeiro, a subida da taxa de câmbio real E significa um ganho de competitividade deste país e a descida de E significa uma perda de  competitividade.

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Link para a Parte III

http://aviagemdosargonautas.net/2013/07/18/retratos-imagens-sintese-dos-efeitos-da-crise-da-zona-euro-sobre-cada-pais-162/

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