EDITORIAL – BOMBEIROS PIRÓMANOS?

Imagem2A figura do bombeiro pirómano parece-nos caracterizar, de certo modo, o de políticos que, tendo favorecido compadrios, clientelismos, toda a espécie de corrupção, e que tendo, para pagar a gigantesca dívida causada por dislates e roubos de uma elite, sacrificado todo um povo, aparecem agora a tentar passar por salvadores. Estes bombeiros pirómanos, pertencentes a todo o “arco do poder” pretendem constituir um governo de «salvação nacional». Salvação nacional? De que nação?

A tal ideia peregrina de Cavaco Silva, de um Governo de Salvação Nacional, não foi por diante e ainda bem que não foi, pois iríamos assistir a uma ópera cómica, com duetos dissonantes a preencher todo o espectáculo. Era um projecto disparatado e quem o propôs vai ter que tirar outro coelho da cartola (salvo seja!).

A fase mais negra da política nacional no pós-25 de Abril, começa precisamente com os governos de Cavaco Silva, entre 1985 e 1995. Não porque antes tudo tivesse ocorrido com limpidez, mas porque foi sob governos que o homem de Boliqueime conduziu que se instalou solidamente a oligarquia endogâmica, tentacularmente mafiosa, que, espalhada pelo PSD, pelo PS e pelo CDS, conduziu o país ao estado em que está. A eleição de Cavaco Silva para a presidência da República, por si só, prova a perversão que a chamada «democracia representativa» constitui. Como é que uma figura, intelectualmente menor, politicamente lamentável (até colaborador da PIDE reconhece ter sido!) pode ascender à mais elevada magistratura da Nação? Num plano mais modesto, outro exemplo muito recente atesta a ridícula impotência do sistema para enfrentar a desonestidade organizada –  Isaltino Morais, ex-autarca de Oeiras, a cumprir pena na prisão da Carregueira, por fraude e branqueamento, vai encabeçar uma lista independente à assembleia municipal. Como é possível?

É que, para que o sistema fosse minimamente aceitável, teria de haver mecanismos constitucionais que impedissem os maus governantes de voltar a intervir na política e que aos seus partidos fosse vedada a constituição de futuros governos. Assim, temos pirómanos a querer passar por heróicos soldados da paz. Assassinos da democracia a querer assumir o papel de salvadores da Nação. E as vítimas a assinar com o seu voto a própria sentença. Uma ópera cómica que não nos faz rir.

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