RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e arranjo por Júlio Marques Mota

A crise europeia e o papel do sistema financeiro

Intervenção de Vítor Constâncio, Vice-Presidente do Banco Central Europeu na Conferência no Banco da Grécia sobre “ A crise na zona euro”

Atenas, 23 Maio de 2013

PARTE V
(CONTINUAÇÃO)

Como consequência, as necessidades de financiamento externo total dos países em dificuldade sofreu uma evolução notável,  partindo-se de significativos défices (excepto a Itália) em 2008-09, para se chegar a situação próxima do equilíbrio ou mesmo com excedente como é o caso da Irlanda no final de 2012.

constâncio - XXVII[Slide 9: Ajustamento externo e necessidades totais de financiamento externo]

A recente Previsão de Primavera da Comissão Europeia prevê para este ano, com excepção da Grécia com um défice de apenas -1.1% do PIB, que todos os outros países em dificuldade estarão com excedentes na balança corrente. É importante sublinhar que este resultado não é somente a consequência da recessão e de mais baixas importações mas é também o resultado de um desempenho bastante dinâmico das exportações de bens e serviços, próxima ou acima da média da zona euro, novamente com a Grécia a ser a excepção. No entanto, o ajustamento significativo  que foi feito pelos países em dificuldade tem sido alcançado a custo elevado em termos de crescimento e, particularmente, em alguns casos em termos de desemprego também.

constâncio - XXVIII[Slide 10: Desemprego jovem nos países em dificuldade]

O caminho pela frente

Não obstante isto, não é agora o momento de mudar de rumo, pois até se poderia destruir tudo o que já se conseguiu. A prorrogação do prazo de cumprimento recentemente dado pela Comissão aos diversos países significa que o ritmo do ajustamento pode tornar-se mais gradual, no pleno respeito da abordagem estrutural cuja acção efectiva sob o braço preventivo do Pacto de Estabilidade e crescimento é pois medida. O objectivo final de continuar a tranquilizar os mercados quanto á sustentabilidade da dívida futura não pode ser abandonado. É encorajador que a reacção do mercado aos desenvolvimentos recentes, incluindo as nossa próprias OMT, reduziram substancialmente os rendimentos e os spreads, particularmente para a Grécia, que também beneficiou de uma melhoria na notação recentemente atribuída.

No entanto, também é claro que o processo de reequilíbrio também beneficiaria se houvesse na Europa um ambiente económico mais favorável e com maior crescimento. Aqui, há quatro elementos que poderiam ajudar. Primeiro, uma política macroeconómica mais coordenada a nível da zona euro para assim se alcançar um maior crescimento da procura. Segundo, a aplicação de reformas estruturais, também nos países superavitários para aumentar o crescimento e facilitar um mais abrangente processo de reequilíbrio. Em terceiro lugar, para apoiar as reformas estruturais nacionais nos países em extrema dificuldade, a introdução de programas contratuais com meios para apoiar a sua implementação, o que deve fazer parte de uma futura proposta de Comissão. Em quarto lugar, espero que haja uma futura decisão de implementar a nível da zona euro o que é referido no Relatório do Presidente Van Rompuy “Towards a genuine Economic and Monetary Union- Para uma União Económica e Monetária genuína” [6], como “…. o estabelecimento de uma capacidade orçamental para facilitar o ajustamento a choques económicos. Isto pode assumir a forma de um mecanismo do tipo de seguro entre os países da zona euro para amortecer os grandes choques económicos específicos de cada país. Tal função poderia assim garantir uma forma de solidariedade orçamental exercida sobre os ciclos económicos, e com isso a melhoria da capacidade de resistência da zona do euro como um todo e a redução dos custos financeiros e de produção associadas aos ajustes macroeconómicos “.

Implicações para a investigação económica

Deixem-me agora recordar brevemente o progresso na nossa investigação sobre o que fizemos no BCE em termos da compreensão do papel do sector financeiro na macroeconomia. Como já o  disse mais acima, uma das razões pelas quais a importância e os riscos da evolução financeira não foram identificados anteriormente é a de que, antes da crise, os sectores financeiros estavam basicamente ausentes ou eram irrelevantes nos modelos macroeconómicos estandardizados que os bancos centrais tendem a usar.

É importante que a profissão de economista consiga gerir esta mudança o mais rapidamente possível. Neste contexto, há mais de dois anos atrás, o BCE e os outros bancos centrais da União Europeia começaram uma grande iniciativa de pesquisa nesse sentido, Macroprudential Research Network (MaRs) [7]. A sub-equipa MaRs deu passos importantes na integração de caracterizações realistas de instabilidade financeira generalizada em modelos da economia global, na análise dos canais de transmissão entre a instabilidade financeira e as variáveis macroeconómicas, ao explicar a recente crise, e na avaliação de políticas que incidem sobre o risco sistémico [8]

Alguns desses novos modelos fazem um bom trabalho a explicarem como é que os desequilíbrios financeiros contribuíram para os macro desequilíbrios nos países periféricos. Por exemplo, estes modelos predizem que se houver grandes fluxos internacionais de capital para um país de baixo crescimento, então o investimento excessivo é repartido por projectos de baixa produtividade (por exemplo, habitação). Com um tal boom de crédito marcado pela oferta, as taxas de juros caem, os incentivos no sector bancário deterioraram-se e a fragilidade financeira é então gerada endogenamente. Em tais países acabam-se por se verificar largos défices na balança corrente e os seus bancos tornam-se sobre-alavancados que mais cedo ou mais tarde vai desembocar numa crise financeira.

Apesar do que temos aprendido graças aos nossos esforços de investigação conduzidos no âmbito do BCE, também temos e contamos com os trabalhos dos profissionais em económica e no sentido mais amplo da expressão, em particular, os trabalhos de investigação universitários, para um envolvimento ainda com mais força nesta linha de investigação. Valorizamos muito a nossa interacção com os meios académicos e os benefícios que surgem da combinação de experiência ganha na concepção e aplicação das políticas com o rigor analítico próprio dos meios académicos. Apesar de alguns esforços valiosos [9], sentimos que muito mais precisa de ser feito, para que o jovem PhD que contratemos vindo das universidades esteja bem equipado com as ferramentas analíticas que reflectem tanto as relações macroeconómicas estandardizadas e como estas são alteradas pelas actividades de intermediação financeira – e, é claro, o seu potencial para gerar instabilidade.

(continua)

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Link para a parte IV

http://aviagemdosargonautas.net/2013/07/19/retratos-imagens-sintese-dos-efeitos-da-crise-da-zona-euro-sobre-cada-pais-163/

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