MIGUEL DELIBES E OS SEUS LIVROS – por Carlos Loures

livro&livros1

Miguel Delibes é um dos maiores escritores de língua castelhana. Nasceu em Valhadolid em 17 de Outubro de 1920 e morreu em 12 de Março de 2010 na «sua» cidade. Membro da Real Academia Espanhola desde 1975, foi um dos escritores que, no período pós-guerra civil mais contribuíram para restituir o prestígio à literatura do seu país. Alguns dos seus romances foram adaptados ao teatro e ao cinema. Uma obra vasta, prémios, doutoramentos honoris-causa… O primeiro livro que li de Miguel Delibes foi o que a colecção Miniatura dos «Livros do Brasil», publicou – “Duelo no Paraíso” ou «Luto no Paraíso», procurei o livro e não o encontro (não devia emprestar livros – dar livros é bonito, emprestar nem tanto). Mas sei que na altura concluí que, em português, se perde o sentido duplo que Delibes deu ao título, pois “duelo”, em castelhano, além de significar o mesmo que em português, significa também luto, além de outras acepções (dó, lástima, etc.).

Lembro-me da impressão que a sua leitura, há cinquenta anos atrás, me produziu. Delibes conseguia criticar a ditadura em que vivia sem ser agressivo, da leitura do seu texto depreendia-se uma grande nostalgia da liberdade, mas sem que palavras incendiárias, demagógicas, dessem azo a que a tesoura censória entrasse em acção. Nunca sendo capaz de escrever de maneira tão discreta, a leitura desta sua pequena novela despertou-me uma grande admiração. Com ternura, com alguma piedade embrulhada em ironia, transmite-nos essa sensação, pois não é expressamente afirmada, de que tudo se passa numa sociedade disfuncional, castrada, privada de liberdade.

Depois, fui lendo em castelhano algumas das obras seguintes – tenho à minha frente “La hoja roja”, com um magnífico prefácio de Francisco Umbral (1932-2007). Um outro romance importante na sua obra é “Señora de rojo sobre fondo gris”, que publicou em 1991. Baseia-se na dor que sentiu quando sua mulher morreu em 1974. «Ela era a melhor metade de mim mesmo”, disse. De resto, quase toda a sua obra é, de certo modo, autobiográfica. Note-se que para aceitar ser sepultado no Panteão, exigiu que a seu lado ficassem as cinzas de sua esposa.

Era o chamado “homem de família”. Num texto manuscrito e reproduzido em fac-simile no seu livro para crianças ”El príncipe destronado”, diz: «A minha vida sempre decorreu rodeado de crianças: terceiro de oito irmãos, pai de sete filhos, avô de dez netos, os problemas infantis sempre despertaram o meu interesse». Actualizando o censo familiar, sua neta, Elisa Silió, diz hoje em texto publicado no El País: «Sete filhos, 18 netos e dois bisnetos. Ele era o patriarca de uma extensa família com um arreigado sentimento de clã.» E falando da herança deixou a esse clã, termina: «E quero pensar que teremos herdado um pouco da sua absoluta integridade e dignidade, o seu compromisso relativamente ao próximo, a sua repulsa pelo consumismo feroz e o seu espírito de independência».Imagem1

A sua obra mais premiada e citada é “Cinco horas com Mario” (1966) – um longo monólogo que se estende por 27 capítulos. Um dos poucos livros seus traduzido em português, senão mesmo o único actualmente disponível, é “O Herege”, cuja acção se situa em Valhadolid no século XVI, romance escrito em 1998, Com a sua prosa segura e contida proporciona-nos uma visão da época de Carlos V e das lutas religiosas. Foi o último romance que publicou.

Recomendo a leitura de todos os livros de Miguel Delibes.

Leave a Reply