NÃO ESQUEÇAMOS NUNCA HUMBERTO DELGADO – por Carlos Loures

O amigo César Príncipe enviou-me há dias atrás uma série de digitalizações de um livro  –  Humberto Delgado – Assassinato de um Herói, de Mariano Robles Romero-Robledo e José António Novais. O que me fez procurar o livro que sabia ter e que encontrei. E que reli, pois lera-o quando o comprei há mais de 30 anos. Publiquei já uma nota de leitura sobre esta obra excelente. A leitura deste livro recordou-me em que circunstâncias a notícia da morte do general me chegou.

Foi já em Março de 1965 que soube do assassínio de Humberto Delgado. Estava no presídio de Caxias, no reduto Sul. Tinha sido preso no principio do ano e após um percurso pelo Aljube, interrogatórios na António Maria Cardoso e isolamento contínuo no reduto Norte, tinham-me colocado numa cela comum na antiga sala de operados do Aljube com um grupo de outros jovens, na sua maioria estudantes ligados ao PCP e apanhados na leva que a traição do controleiro do sector universitário provocara. Depois, esse grupo foi transferido para Caxias e misturado com mais detidos – creio que num total de 21. Estávamos organizados por tarefas, havendo elementos que se ocupavam da recolha de informações (colhidas nas visitas) que depois passavam a um jornal de parede.

E foi nesse jornal que li a notícia de que o general Delgado desaparecera, não se sabia do seu paradeiro, e que se suspeitava de que fora assassinado pela PIDE. Quando se deram conta de que o jornal tinha esta notícia os carcereiros apressaram-se a arrancá-lo da parede. Nessa noite, após o jantar, o tema das nossas conversas centrou-se na figura do homem que enfrentara corajosamente a ditadura e eu lembrei o dia de Maio de 1958 em que pela primeira vez ouvi Delgado. Uma tarde já quente, numa sala do Teatro Avenida onde estavam instalados os serviços de candidatura. O general falou a um grupo de jovens activistas e impressionou-me a forma como caracterizou a ditadura, sem eufemismos. Concluíra o seu discurso, dizendo-nos que para enfrentar a máquina estúpida e cruel da repressão, teríamos de estar couraçados, blindados como se fossemos tanques.

Recordei a chegada de Delgado a Lisboa, vindo do Porto onde fora recebido em delírio pelos portuenses. Foi numa sexta-feira, 16 de Maio, ao fim da tarde. De Santa Apolónia àImagem2 sede da candidatura, multidões entusiasmadas vitoriaram o general. Na Avenida da Liberdade, cargas brutais da polícia de choque e de forças da GNR a cavalo, provocaram um clima de guerra civil que se prolongou até domingo 18, quando Delgado fez um comício no Liceu Camões. Recordei o seu discurso, no dia 5 de Outubro de 1958, junto ao monumento a António José de Almeida e a forma excessivamente dura como uma força de cavalaria da GNR e a polícia de choque da PSP o interromperam, lançando granadas de gás lacrimogéneo e distribuindo bastonadas a torto e a direito. Tendo apanhado com uma granada em cheio, o general subiu a um primeiro andar onde, da varanda e comprimindo um lenço contra os olhos, prosseguiu o seu discurso. Muitas das teses que o livro defende sobre o assassínio do general, parecem-me corresponder ao que realmente se passou. Embora depois se tenham apurado pormenores.  No seu filme Operação Outono, realizado por Bruno de Almeida, apresenta-se uma versão um pouco diferente. Porém, o essencial permanece indiscutível – o general foi assassinado por uma brigada da PIDE – os criminosos foram identificados. A tão falada brandura de costumes, impediu que sofressem o merecido preço pelo seu acto de cobardes assassinos. Não matemos Humberto Delgado, esquecendo-o. César Píncipe enviou-nos ainda uma fotografia sua junto do monumento que se ergue no local onde o general e a sua secretária foram assassinados, perto de Villanueva del Fresno (Extremadura). Vejamos o trailer do filme realizado o ano passado por Bruno de Almeida, Operação Outono.

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