SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE JACQUES SAPIR – III

Formulação da pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota

Depreciação ou dissolução do euro?

6 julho de 2013

Jacques Sapir

 

Um comentário após o debate sobre o futuro do Euro que tive com Jean-Luc Mélenchon 4 de julho em Arrêt sur Images.

 

A tese de uma possível depreciação do Euro tem tido sempre adeptos na Europa. É verdade que no papel esta combina os benefícios de uma desvalorização (do que é cada vez mais reconhecida a necessidade [1]) com a conservação do Euro (ao qual muitos mantêm uma ligação que considero irracional). É verdade que os cálculos feitos pelo INSEE, desde há muito tempo, dizem-nos que uma reapreciação do Euro teve efeitos negativos sobre a economia francesa [2]. Um estudo do NATIXIS analisa este cenário no início de 2012 [3].

Depreciação do Euro e taxa de integração dos países da taxa da zona Euro.

É necessário especificar como é que isso seria feito. Admitamos que o Banco Central decide resgatar mais de um terço da dívida italiana, espanhola e portuguesa. Isto significaria atingir ou mesmo exceder 2 milhões de milhões de euros que seriam então injectados na economia, o que poderia provocar um choque inicial. Se o BCE se comprometesse a resgatar as euro-obrigações (supondo que estas podem ser emitidas) no valor de 400 a 500 mil milhões por ano para um período de 3 a 5 anos, pode-se supor que isso teria um efeito negativo sobre a taxa de câmbio do euro face a outras moedas e em primeiro lugar face ao dólar americano. Continua-se a ver-se muito mal como é que tanto o BCE, como os governos alemão, austríaco e finlandês iriam aceitar essa solução.

Além disso, esta decisão só iria beneficiar os países na medida em que eles fazem uma grande parte do seu comércio para fora da zona euro. Isto é o problema da taxa de integração na área do Euro. Devemos aqui recordar que a moeda única deveria provocar uma forte integração comercial dos países que a ela aderissem. Deste ponto de vista, é importante lembrar a tabela que consta do meu livro deve Faut-il Sortir de l’Euro? publicado na SEUIL em Janeiro de 2012.

sapirsaídadoeuro - IVEstes números podem ter mudado um pouco em 2012, mas eles representam fortes tendências do comércio internacional dos países membros da zona euro. Imediatamente verifica-se que as diferenças na taxa de integração são importantes, mesmo para países de dimensão comparável. A Itália está acima de 70% e a Espanha em cerca de 60% enquanto a França está em cerca de 49/50%. Isto tem implicações óbvias para os potenciais efeitos de uma depreciação do Euro em relação ao cenário de uma dissolução do Euro.

Os efeitos de uma depreciação do Euro

A questão reapareceu várias vezes durante o debate que tive com Jean-Luc Mélenchon em Arrêt sur Images na quinta-feira, 4 de Julho de 2013 [4]. Voltemos, entretanto, ao tema um pouco mais. E, neste caso, sonhemos um pouco com a ajuda do modelo utilizado pela redacção do estudo que em breve será publicado pela Fundação Res Publica.

Imaginemos, portanto, que Jean-Luc Mélenchon, levado por um vasto movimento popular toma o lugar do desastrado François Hollande (e, apesar de tudo Morsi eleito como de facto o foi, também foi…). Como dixit Melenchon, eu constituo a sua “dissuasão nuclear”, eu acho que ele me vai levar à próxima Cimeira Europeia (mas sob boa escolta e com Jacques Généreux a servir-me de protecção), história de meter medo à senhora Merkel e ao Senhor Draghi.

Imaginemos que isso funciona. Madame Merkel apavorada com a ideia de um Jacques Sapir em fúria, Mario Draghi, em bom grande burguês florentino, sabendo ele que tudo pode mudar para se poder esperar que fique tudo na mesma (para ele ) e que também terá visto nos meus textos que eu não queria a supressão do BCE (o lugar é bom apesar de tudo), concordam em fazer o que pretende então Mélenchon. No espaço de poucas semanas e como resultado de intervenções vigorosas pelo BCE, a taxa de câmbio do Euro face ao dólar dos EUA cai de USD 1,30 a USD 1,04 (uma redução de 20%). O que acontece então?

Primeiro vamos olhar para as consequências negativas de qualquer desvalorização, seja o impacto na inflação.

Gráfico 1

 sapirsaídadoeuro - V

Verificam-se duas coisas. Em primeiro lugar que a inflação inicial é menor em França do que noutros países, incluindo a Alemanha. É perfeitamente lógico, tanto do ponto de vista das elasticidades da procura relativamente ao preço que conhecemos por causa da quota de energia nas importações, parte relativamente mais baixa em França do que nos seus vizinhos. A seguir, se a Alemanha retorna rapidamente a uma taxa de inflação nula, isso não é o caso para a Espanha e para Portugal, cuja inflação é ainda maior do que a França, nem mesmo para a Itália, cuja taxa de inflação só converge com a da França no final do período. Isto tem consequências imediatas sobre a taxa de câmbio real implícita dentro da zona euro. Na verdade, se a taxa de câmbio nominal não pode se mover (pois esta é definida no contexto da moeda única) não acontece o mesmo com a taxa de câmbio real, sendo esta expressa pela taxa de câmbio nominal corrigida pela diferença entre a inflação do país considerado e a do conjunto dos seus parceiros comerciais.

(continua)

____

Ver parte II em: http://aviagemdosargonautas.net/2013/07/31/saida-do-euro-a-resposta-de-jacques-sapir-ii/

1 Comment

Leave a Reply