Há dias o José Goulão expôs brilhantemente, num artigo publicado em A Viagem dos Argonautas, o drama do Egito, enquadrando-o no xadrez internacional jogado pela “comunidade internacional” e pelos dirigentes imperialistas e neocolonialistas. Vejam:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/07/22/mundo-cao-o-egipto-por-jose-goulao/
Entretanto, ontem, John Kerry, secretário de estado norte-americano, de visita ao Paquistão, declarou a uma televisão privada que o exército egípcio derrubou Morsi para restabelecer a democracia. Pôs assim fim à pseudo neutralidade que os EUA vinham tentando manter. Deve ter pesado na sua decisão a intenção dos militares egípcios de reforçarem o cerco á faixa de Gaza, na altura em que são retomadas as conversações entre Israel e a Palestina, sempre sobre a égide de Washington. Vejam:
Le Monde não relaciona a declaração de Kerry com a Palestina, mas ela é por demais evidente. O esmagamento dos palestinianos por Israel é uma peça basilar da política norte-americana na região, para apoiar os desejos expansionistas de Israel e mostrar aos egípcios, líbios, sírios, tunisinos, etc. , que a Primavera Árabe não passou de uma ilusão. A luta dos palestinianos tem um grande significado para os árabes e mais povos oprimidos da região, que se sentem também esmagados pelos vários ditadores que têm aparecido no Próximo e Médio Oriente, e pelas potências que ora apoiam esses ditadores, oram os derrubam e substituem conforme as suas conveniências.
Os mais de 80 milhões de habitantes do Egito preparam-se para dificuldades cada vez maiores. Dilacerados entre os militares e os extremistas religiosos, vivendo na sua maioria nas margens do rio Nilo em condições precárias, vêem o futuro cada vez mais difícil. Sendo de longe o país mais populoso da região poderiam tornar-se numa potência regional significativa, se não fosse a forte vigilância da tal “comunidade internacional” e dos tais dirigentes imperialistas e neocolonialistas, entre os quais John Kerry tem assento de pleno direito.
Um aspecto muito complexo da vida dos egípcios e dos restantes povos da região é o proselitismo religioso, que tem tido um papel cada vez maior nas últimas décadas. Encorajado pelas tais potências referidas e pelas classes dominantes locais nos tempos da guerra fria para conter a expansão das ideias socialistas, acabou por ver o seu papel agregador muito aumentado. Contudo, é cada vez mais um obstáculo ao desenvolvimento da democracia na região, e um factor de retrocesso civilizacional. Abre caminho ao fanatismo mais desumano, e não ajuda, antes prejudica, a emergência de sociedades organizadas nos países árabes e outros da região, de estados modernos e sobretudo de uma consciência cívica e da cultura de participação. As potências, com os EUA à cabeça, vão jogando nos vários tabuleiros, lançando as facções sunitas contra os xiitas e alauítas, explorando rivalidades entre os vários países, e procurando controlar as forças armadas, para inclusive tentarem prevenir o aparecimento de outro Nasser. Estão a conseguir acabar com a Primavera Árabe, e a impedir o fortalecimento do Egipto e das restantes nações.

