EDITORIAL: A LIBERDADE NÃO É PARA INGÉNUOS

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Nos tempos modernos, temos vivido sob o mito de que o progresso é irreversível. Não só o progresso material, mas também o progresso em termos políticos e sociais. Sem dúvida que muita gente interiorizou a crença de que a democracia e a liberdade, mais tarde ou mais cedo, se estenderão a todo o mundo. E de que as nações que já procuram pôr em prática esses dois princípios, que pelo menos declaram essa intenção, não voltarão atrás.

Tem havido vários alertas a este respeito. A chamada crise financeira está a ter consequências, que são reconhecidas e amplamente debatidas, mas sobre as suas causas tem havido uma tentativa muito persistente de impor uma determinada concepção, e que se resume no seguinte: tem havido uma orgia colectiva a que é preciso pôr cobro. Os mentores dessa concepção conseguiram impor as chamadas políticas de austeridade, que consistem sobretudo, do ponto de vista político, em retirar ao estado o seu papel redistributivo, entregando na prática o poder de decisão aos grandes grupos económicos. Recorde-se a este propósito The Shock Doctrine, de Naomi Klein, um livro que data de 2007, ainda antes do início oficial da chamada crise, e a citação que, na entrada da Parte I do livro, Two Doctor Shocks,  faz de 1984: “We shall squeeze you empty, and then we shall fill you with ourselves”. Em português, “Espremer-vos-emos até ficarem vazios, e então encher-vos-emos com nós próprios”. Que têm andado a fazer Passos/Portas & Cia., senão isto? Espremidos já estamos muito, até ao tutano, e quanto a encherem-nos com as suas prédicas, e a dar-nos cabo do juízo, não se têm poupado a esforços.

É de todo oportuno recordarmos o caso Thomas Snowden, que desencadeou reacções de natureza e sentidos muito diversos. Muitas pessoas tiveram reacções de simpatia com o jovem americano, que terá tido problemas de consciência ao perceber o alcance do trabalho de que tinha sido encarregado. Outros duvidam abertamente das suas intenções. Esta discussão é sem dúvida importante, até porque há outras pessoas em situação ainda mais grave, por motivos semelhantes, como é o caso do soldado Bradley Manning. Sem entrar em análises individuais, recordemos neste momento, em que as políticas de austeridade parecem continuar a impor-se, causando grandes estragos, apesar de todos os protestos e declarações de boas intenções, que elas assentam num enorme controle da informação, por um lado, e por outro num desenvolvimento exponencial da tecnologia, em moldes que servem sobretudo aos seus detentores. Snowden e Manning, tal como Julian Assange, são neste momento pessoas que lutam pela própria sobrevivência. O seu julgamento moral, jurídico ou histórico, será feito por muitos, com resultados diferentes, conforme as opiniões. Mas o que não se pode negar é que nos deram uma imagem concreta da força enorme que nos procura controlar, dos meios incomensuráveis de que dispõe, e que eles nos deixaram entrever o perfil da mão que os detém e acciona. Deixou de ser a mão invisível, mas nem por isso será menos implacável. Não tenhamos a ingenuidade de acreditar que podemos passar sem a enfrentar.

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