NOVA CRÓNICA DE FARO Nº 2 – UMA CARTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA. Por JÚLIO MARQUES MOTA

E POR AQUI PASSA A DIFERENÇA ENTRE O MUNDO MICRO DOS POLÍTICOS DE AGORA E A VISÃO MACRO QUE HÁ-DE GARANTIDAMENTE ALIMENTAR A POLÍTICA DE AMANHÃ, NESTE E NOUTROS PAÍSES EUROPEUS
Segunda Parte
(conclusão)

A lógica desta visão microeconómica da realidade local e da realidade nacional seguida por si, seguida pelo actual executivo, igualmente,  é então a seguinte: as consequências são os outros que as assumem, são custos que não se inscrevem nas nossas contas, são os idosos que as pagam, individualmente. Mas não, não é verdade por enquanto,  é ainda o país, é o contribuinte no sentido mais genérico do termo,  a pagar o sistema de saúde que estes doentes trata e paga bem mais do que o arranjo das múltiplas calçadas pelos prejuízos destas não serem reparadas. Sai pois caro ao país nada fazer. E só não será assim se o sistema de saúde pública desaparecer em Portugal o que,  de resto,  é o que os homens da sua filiação política andam a querer fazer. Mas mesmo que seja destruído o Serviço Nacional de Saúde, o que é obra quase acabada, seriam os cidadãos enquanto tal a pagarem os custos das suas quedas. Mas são cidadãos portugueses  e o raciocínio seria o mesmo: os custos a pagar pelos cidadãos seriam superiores ao que pagariam colectivamente como contribuintes para as obras de reparação das ruas de Faro, se estas tivessem sido efectuadas. Por aqui, claramente nunca seremos defensores do Estado mínimo. Aliás, esta lógica do Estado mínimo é a lógica subjacente ao rebentar da crise dita de subprimes. Com efeito, como vendedor de uma agência tipo Remax ou um outro operador teria o máximo interesse em vender casas sob hipoteca, ganhava as suas comissões. O seu patrão alinhava pelo mesmo diapasão, aumentava os seus lucros. Os riscos das casas vendidas não eram com ele, ganhava à peça vendida. Teria um pequeno banco local aquém venderia as hipotecas e recebia as suas margens de lucro.  O  pequeno banco por sua vez estaria indiferente ao risco que as hipotecas compradas continham. Vendê-las-ia a um grande banco e ganharia as suas comissões. Riscos, não sabia sequer o que isso seria, naquele caso. Um grande banco, tipo Goldman Sachs, comprava as hipotecas, também ele indiferente ao risco de incumprimento que as mesmas hipotecas tinham, pois criaria um veículo especial que transformaria as hipotecas em títulos, títulos que seriam vendidos nos mercados. Os grandes operadores, como as seguradoras, fundos especulativos ou de investimento compravam estes títulos, indiferentes ao risco que eles continham, pois  compravam uns Credit Defaults Swaps (CDS) nas re-seguradoras e ficavam protegidos. E os vendedores de CDS diriam, se tudo corre bem, ganhamos bem, ganhamos muitos milhões. E se a situação correr mal, obtemos os nossos bónus de milhões e depois  somos demasiado grandes para  falir e o contribuinte, afinal sempre ele,  o cidadão do país (o povo), portanto, esse pagará. Senhor Presidente, a equivalência é total. E quando se quer um Estado mínimo, estamos a pensar num Estado que permite o mundo dos subprimes, ou o mundo das suas passadeiras em Faro, o mundo dos outros que paguem. E afinal entre as suas passadeiras e a crise dita de subpimes, há apenas uma diferença, grande é certo, a da escala dos valores monetários em jogo, pois o modelo aplicado é o mesmo: o neoliberalismo puro e duro. E por aqui passa pois a diferença entre o mundo micro dos políticos de agora e a visão macro que há-de garantidamente alimentar a política de amanhã,  neste e noutros países europeus.

Mas continuando ainda a falar sobre os pavimentos, não há, que eu tenha visto, fora da meia dúzia de ruas que compõem a baixa, um passeio que se diga aceitável onde  os peões não corram  o risco de facilmente caírem. Nalguns casos, o ondulado do passeio ao longo da rua mais parece um sobe e desce (uma montanha russa clássica da feira popular), que outra coisa. Explicação para isto? Simples, para mim. Na minha opinião, a Câmara ter-se-á demitido das suas funções: autorizada uma obra, terminada uma obra, não se verificará a exigência dos fiscais em que o passeio fique transitável e em boas condições. Demissão das suas funções, cegueira dos fiscais de obras a relembrar-me um caso em Coimbra em que um fiscal consentiu que um prédio fosse ilegalmente feito, porque o não viu!!! Ou porque tinha partido ou perdido  os óculos,  já não me lembro bem, pois já lá vão mais de 30 anos. De uma maneira ou de outra se a minha leitura sobre o que vejo está correcta, há então muito mais gente que se demitiu das suas funções, e neste caso, porque não, a responsabilidade deve até ser considerada, em última instância, como sendo a do próprio Presidente, neste caso, a do senhor engenheiro.

Falámos apenas de ruas, do que está exposto à vista de toda a gente, porque neste momento as ruas de Faro são o exemplo do País, do país que se quer com Estado mínimo. Num outro dia falaremos de outras coisas. Hoje foi esta a opção, porque com esta tem-se um espelho disso mesmo, do Estado minimalista pretendido pela Troika e tendo como seu maior executante o primeiro ministro actual. De acordo com este modelo, os exemplos apontados mostram-nos que o cidadão, enquanto sujeito portador de direitos, é ignorado, abandonado, insultado mesmo, como se mostra com a caça aos direitos mínimos de quem vai para o desemprego, e o mesmo cidadão, enquanto gerador de receitas é, pelo que se ouve dizer, constantemente assaltado, saqueado, pelas autoridades. As concessões de exploração da cidade como um imenso parque onde haverá sucessivas infracções a descobrir e a multar, são disso um verdadeiro exemplo, e isto é mais uma machadada na parte histórica de Faro desferida por si. Que o digam os comerciantes.  Não se trata de proteger o cidadão de automobilistas perigosos, o sistema de parqueamento por si montado é uma verdadeira caça ao dinheiro do cidadão e depois assiste-se a outro detalhe, a uma verdadeira caça à multa sobre o mínimo descuido dos automobilistas.  Este tipo de visão do cidadão como gerador de receitas não é hoje praticado só aqui. É uma visão do modelo da classe política actualmente no poder, de que o senhor Presidente é  então um executante.

Senhor Presidente, os idosos caídos nesta cidade merecem-me muito respeito, merecem-me este protesto. E é em nome dessa solidariedade de princípio que aqui me posiciono com as minhas leituras sobre a cidade de que o senhor é o Presidente de Câmara.

 

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