Edward Snowden está agora com o estatuto de refugiado na Rússia. As relações entre a Rússia e os EUA turvaram-se. Corre tinta (toner, electricidade, etc.) com tanta notícia à volta deste caso. As reacções variam conforme os quadrantes sociais, políticos e nacionais. Mas uma coisa é inegável: foram grandes. Há quem procure desvalorizar as acções de Snowden, dizendo que não trouxeram nada de novo. Mas isso não corresponde à verdade. Embora já tivessem vindo a lume notícias sobre o projecto PRISM, e fosse do conhecimento geral que os serviços secretos norte-americanos operam por todo o mundo, ninguém supunha que chegassem tão longe, nem poupassem os seus próprios aliados. A própria chanceler Angela Merkel, tão apologista do respeito aos superiores, e tão integrada na ordem neoliberal, viu-se obrigada a protestar contra o facto. A maioria das pessoas não tinha a noção de que os seus mails pessoais podem ser sistematicamente espiados pelas tecnologias utilizadas pela National Security Agency, e, pior, que estão em cursos operações que procedem a essa espionagem sistemática. É uma variante do tempo em que a PIDE tinha informadores pelos cafés, a ouvir as conversas. Uma variante muito mais aperfeiçoada, claro.
As implicações políticas deste caso, melhor dito, as implicações políticas à luz das revelações deste caso, estão muito bem explicadas no artigo de Paul Craig Roberts, um norte-americano de que já publicámos vários trabalhos aqui em A Viagem dos Argonautas, Lawless Is The New Normal, que pode ser consultado em:
http://www.paulcraigroberts.org/2013/07/05/lawlessness-is-the-new-normal-paul-craig-roberts/
Amanhã, às 21 horas, publicaremos a tradução portuguesa deste trabalho, da autoria do argonauta Júlio Marques Mota. Entretanto podemos reflectir sobre as implicações do Tratado de Livre Comércio entre a Europa e os EUA, que, a ser celebrado, puxará mais a Europa para a órbita norte-americana, privando-a ainda mais da sua já escassa independência. Não será a hegemonia alemã na zona euro e na União Europeia, cujos efeitos nefastos estão cada vez mais à vista, que irá impedir isso. Pelo contrário, o poder financeiro, que desde sempre viu os EUA como o seu grande bastião, não hesitará nas suas opções. Por outro lado, os EUA, estão a procurar relocalizar a sua indústria, aprendendo com os erros cometidos, e tirando partido das suas vantagens naturais e da sua superioridade militar. A política de Obama não tem sido outra. A vergonhosa situação de Guantánamo continuará por resolver, e o espírito do imperialismo continuará a presidir à política internacional. A justificação moral em que assenta a propaganda norte-americana para continuar como antigamente foi fortemente abalada pelas revelações de Snowden. Daí as pressões sobre a Rússia. Nos tempos próximos vamos com certeza continuar a ouvir falar de Snowden, quer ele queira ou não.

