A BATALHA DE ALJUBARROTA, ENCRUZILHADA DA HISTÓRIA – 2 – por Carlos Loures

(Continuação)

Tentando avaliar o equilíbrio de forças perante a crise que a morte de D. Fernando abriu na sociedade portuguesa, diria que o Infante D. João, meio-irmão do rei  e filho de D. Pedro I e de  Inês de Castro, recolhia o apoio de uma boa parte dos portugueses – mas havia também, ainda que em minoria, quem apoiasse as pretensões ao trono de um filho bastardo de D. Pedro,  D. João, Mestre da Ordem de Avis. E foi neste quadro que, de súbito, as coisas se precipitaram. Foi no dia 6 de Dezembro de 1383…

O Mestre de Avis foi aos Paços da Rainha e apunhalou o conde Andeiro, matando-o. Dado a aversão que o povo votava ao nobre galego, o número de apoiantes do Mestre de Avis subiu em flecha. Ao saber do apunhalamento do Andeiro, o povo de Lisboa amotinou-se e proclamou o ,Mestre de Avis, como “Regedor e Defensor do reino” . Na sua linguagem vivaz e colorida, Fernão Lopes descreve-nos, a maneira subtil como, naquele dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido (liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim».

No plano do Mestre e seus partidários, o papel dos mesteirais e da arraia-miúda na conjura foi o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro. Assim foi: o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as aclamações da multidão, pediu aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister». Cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena. Mas.  a partir daqui, o plano urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na falsa conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e não se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade.

As causas da crise de 1383 a 1385:

A morte de D. Fernando, colocando Leonor Teles e o Andeiro na governação do País, terá sido o detonador, mas outros factores contribuíram para a crise de 1383 a 1385.   Um deles, quiçá o mais importante, situa-se nas rivalidades, invejas, ódios, que minavam a nobreza. Fermentavam desde a subida ao trono de D. Afonso IV, em 1325. Este rei praticou uma política regalista, atribuindo títulos, privilégios e prebendas , permitiu que se criasse um conjunto de famílias nobres, frequentadoras assíduas da corte e beneficiárias dos  favores régio..Quando o rei D. Fernando morreu. Essa elite, maioritariamente  composta por famílias oriundas de Castela e da Galiza – os Teles e os  Castros, por exemplo, que no reinado de D. Afonso IV se tinham refugiado em Portugal fugindo às guerras civis que lavravam em Castela. D. Pedro I tinha-os protegido e esses exilados tinham ganho uma crescente influência. Leonor Teles e o Andeiro, apoiaram-se nesse segmento da nobreza e o resultado era a perda da independência de Portugal ser encarada como coisa, não só inevitável, como também normal e mesmo favorável.

Ao núcleo duro de famílias estrangeiras, juntaram-se portugueses que tinham os seus interesses ligados à permanência de Leonor  Teles e de seu valido no poder, gente que devia a sua posição a favores da regente que nomeara alcaides e atribuíra outros cargos – caindo Leonor Teles, os que com ela estivessem conotados, perdiam as situações de privilégio. Como quase sempre acontece, por detrás das posições políticas estavam questões económicas, interesses pessoais. Perante o impasse político em que a morte de D. Fernando, não havendo um herdeiro natural, fazia prever uma ofensiva militar castelhana. Castela nunca perdia uma oportunidade para subjugar o pequeno reino que se obstinava em não ser absorvido.

Alegando-se motivos diversos, inclusive razões patrióticas, o que estava mais em causa era a perda ou a obtenção de privilégios. O povo, sobretudo o das cidades, era talvez a única classe que ostentava o legítimo sentimento de não querer ser dominado por estrangeiros. O apoio do povo, foi o grande trunfo do Mestre de Avis.

(Continua)  

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