(Continuação)
A pouco mais de um quarto de século do ano de 1900, exactamente em 1872, é quando tem lugar a criação da Federação Portuguesa da Associação Internacional de Trabalhadores (I Internacional). A A.l.T. tinha sido fundada 8 anos antes, em Londres, numa Conferência que reunira sindicalistas dos principais países da Europa e da América (Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e Estados Unidos) e uma das decisões aí tomadas fora precisamente a de que em cada país se constituísse uma Federação ou uma Secção da A.I.T. Graças ao esforço de homens como José Fontana, Antero de Quental, Azedo Gneco, Sousa Brandão, Nobre França e Batalha Reis foi possível dar esse primeiro passo de tão relevante importância na história do movimento sindical português.Foram, de resto, estes mesmos homens que deram origem ao Partido Operário Socialista Português (POSP), fundado em 1875.
Fontana foi um activo promotor da resistência operária através de greves e coube-lhe a organização das primeiras manifestações do 1.º de Maio. Elaborou vários discursos inflamados em defesa dos seus ideais e redigiu vários folhetos de propaganda.
«A actividade o trabalho de Fontana na Fraternidade não tiveram rival. Aparecia subitamente numas poucas de reuniões na mesma noite, encontrando-se tão depressa em Alcântara como no Beato, em Santa Clara como no Poço do Bispo. Era um homem, um trabalhador às direitas!». – Recorda Luís Figueiredo, companheiro de luta.
A sua figura e capacidade oratória, tornam aos poucos carismáticas para o movimento operário e socialista português. O mesmo Luís de Figueiredo descreveu assim José Fontana: «[…] era daqueles que nunca se esquecem mais, uma vez encontrados na vida. Tinha um não sei quê de nobre e simpático que o inundava duma tonalidade doce e meiga, que o fazia atraente e vago. Quando ele falava, vagarosamente, espaçando as palavras e seguindo-as nos ares com o seu grande dedo comprido e descamado, recorrendo à parábola e pintando comovido as misérias dos operários, […] tomava um aspecto singular, como dum iluminado sonhador. Se tivesse nascido noutra época, Fontana seria, talvez, um asceta, um inspirado, tal é, pelo menos, a forma porque o reconstruo no meu cérebro, à distância de um bom par de anos». Na luta contra as influências republicanas no seio do movimento socialista, José Fontana tomou para si o papel de dianteiro, ao denunciar os limites do republicanismo numa das assembleias operárias, em que se lutava pela autonomia do movimento socialista face ao arrastamento para que procuravam conduzi-lo: «Sou suíço, filho dessa República que apontais como modelo. Sou pois uma testemunha viva do que ela vale, e todos sabem que não sei enganar os que me escutam: pois bem, sob minha palavra de honra certifico à assembleia que na Suíça os operários sofrem tanto como em Portugal, que são tão desgraçados, tão miseráveis, tão tiranizados, como neste País monárquico, existe o grande tirano dos operários — o capital. Enquanto não houver igualdade económica, a igualdade política será uma mentira; enquanto o capital for senhor, o trabalho será escravo».
Militante da Federação da Associação Internacional dos Trabalhadores, manter-se-á afastado da corrente socialista encabeçada por Nobre França, prestando todavia, embora já doente, a sua caução à formação do Partido Operário Socialista Português e à Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa.
Irá compartilhar com Antero de Quental o papel de figura tutelar do socialismo português. Ao mesmo tempo que se desdobrava em intensa actividade «uma fatal doença que ainda muito novo se lhe alojara no corpo, caminhava também, aproveitando o cansaço daquele organismo para melhor o prostrar e vencer», diz Luís de Figueiredo referindo-se à sua morte.
«Depois, num negro dia — o segundo do mês de Setembro de 1876 uma bala de revólver punha termo ao sofrimento de José Fontana.
Acabrunhado pela doença, inútil, quase morto, com a certeza irrevogável da sua condenação, Fontana foi um suicida, um tíbio, depois de ter sido um benemérito. Não foi um criminoso, nem um cobarde, porque tinha bem pago a sua dívida para com a sociedade e porque havia sido um valente e um herói».
Foi um incansável lutador pela causa do movimento operário e socialista, pronto a defender os direitos humanos das classes operárias. Atestam-no as cartas que dirigiu Karl Marx e a Frederich Engels para Londres e que se conservam hoje nos Arquivos do Instituto Internacional de História Social, em Amsterdão.
Não se preocupava com prestígio individual e, muito menos, com as vantagens que desse prestígio lhe pudessem vir. As suas preocupações centravam-se nos interesses colectivos. E, ao mesmo que defendia os direitos dos seus companheiros ensinava-os a terem consciência da sua condição de homens livres e dignos. Os seus escritos contêm estas noções de pedagogia política, de emancipação social e, por consequência, de liberdade. As Conferências do Casino — aquelas célebres conferências que iniciaram o movimento democrático em Portugal — foram obra sua e de Antero de Quental. No Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas eclipsava também Fontana os maiores oradores populares do seu tempo. Depois, o canhoneio da Comuna de Paris orientara-lhe as ideias, dando-lhes forma e definindo-lhes as aspirações. Fontana foi da plêiade brilhante dos que ousaram defender os incendiários de Paris, os petroleiros malditos e condenados. Era necessária coragem, talento, para o poder fazer!
(Continua)
