EÇA DE QUEIRÓS, por JOÃO MACHADO. ILUSTRAÇÃO de DORINDO CARVALHO

 Eça - II

 

Eça de Queirós era oriundo da classe burguesa, e teve uma infância algo acidentada, devido à situação dos pais, que só casaram quatro anos após o seu nascimento, devido aos obstáculos levantados pela família da mãe. Formou-se em Direito  em Coimbra, onde confraternizou com Antero de Quental e Teófilo Braga. Fixou-se  a seguir em Lisboa, onde exerceu durante vários anos a advocacia e o jornalismo. Em 1866 fundou o jornal O Distrito de Évora, iniciando uma colaboração regular com a imprensa. Em 1869 assistiu à inauguração do canal de Suez.

Em 1870 foi nomeado administrador do concelho de Leiria. Foi aí que escreveu O Crime do Padre Amaro, o primeiro grande romance realista português, e sem dúvida que um dos melhores da literatura portuguesa de todos os tempos. Esta obra só seria publicada em 1876, e motivou vivos protestos da Igreja Católica. Entretanto, em 1872, enveredou pela carreira diplomática, sendo colocado em Havana, onde se defrontou com a grave situação dos trabalhadores chineses, os coolies, alvo de intensa exploração, tanto pelos seus compatriotas como pelos agricultores locais. Em 1874 é colocado em Inglaterra. Mais tarde será nomeado para Paris (1888).

Em 1871, Eça de Queirós tinha participado  nas Conferências do Casino, com uma conferência intitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte.  Desde Coimbra que se tinha familiarizado com a cultura francesa, cuja influência na sua obra é incontestável, mas Eça soube imprimir a esta um traço muito próprio, aliando a uma descrição intensa e precisa da realidade um sentimento profundo de inquietação  pelo destino humano, e pela fragilidade individual, mesmo entre os mais ricos e poderosos. Em Os Maias (1888), por muitos considerado como a sua melhor obra,  são brilhantes os quadros e os tipos humanos, mas pesa o drama da família aristocrática, destroçada por uma situação mórbida, já abordada em A Tragédia da Ruas das Flores (romance publicado em 1980, oitenta anos depois da morte do autor).

Eça de Queirós marcou uma época na literatura portuguesa, a da transição do romantismo para o realismo. Não optou com carácter definitivo por nenhum destes movimentos literários, mas deu um impulso decisivo à passagem do primeiro para o segundo. Defendeu  com grande vigor nas Conferências do Casino (1871) a opção pelo realismo na literatura, produziu o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira, escrito em 1873, o romance O Crime do Padre Amaro (1876), e mais obras de carácter francamente realista, mas deixou-nos outras obras em que são notórias as suas inclinações idealistas, como as que foram publicadas em Vidas de Santos.

Através da sua obra obtém-se um retrato muito vivo do que foi a época em que viveu, com uma crítica constante à sociedade contemporânea. Para além do seu talento espantoso, patente nos personagens  que criou, na verve avassaladora e na fantasia desbordante que aparecem por toda a sua obra, podemos dizer que na obra de Eça de Queirós transparecem três grandes ideias sobre o seu autor.

Uma enorme simpatia pelos deserdados e oprimidos, visível desde a solidariedade que manifestou pelos chineses emigrados em Cuba, e que terão inspirado O Mandarim (1880), e pelos camponeses do Douro, que Jacinto vai encontrar em Tormes, em A Cidade e as Serras (1901).

Um grande amor pátrio, patente em A Ilustre Casa de Ramires (1900), na analogia que João Gouveia faz entre Gonçalo Mendes Ramires e Portugal, associado, é verdade, a um sincero desgosto pela incapacidade em vencer os problemas que o atormentam.

Um gosto acentuado pelas coisas da cultura, a todos os níveis, patente em toda a sua obra, mas talvez especialmente em A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas) (1900).

Eça de Queirós foi vincadamente um crítico acerbo do sistema social e dos costumes vigentes em Portugal. Talvez a partir de certa altura tenha passado a uma postura mais branda, mas que nunca passou a conformada. Patriota, nunca escondeu o desespero e a repulsa  que lhe causavam  o marasmo da vida nacional, a pobreza do povo e a hipocrisia das classes dominantes. Mesmo em A Cidade e as Serras (1901), quando descreve os faustos da vida dos ricos, sente-se  bem a mordacidade de quem os desdenha, e percebe bem a vacuidade dos que os ostentam. Deixou atrás de si uma sensação de obra inacabada, apesar de toda a grandiosidade que atingiu. Talvez aí esteja a melhor prova da importância que ele dava à literatura, à “sua” literatura, como a melhor maneira de ver e estar no mundo.

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