POESIA AO AMANHECER – 263 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

MANUEL DE CASTRO

( 1934 – 1971 )

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio

um corpo agora oco gasto frio

a morte é uma cor que foi escolhida

para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto que foi um peixe

que foi o ar que foi o sangue e o gesto

atravessa o mar com círculos nos braços

possuído no seu próprio destino

na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes

e no entanto desde há muito extintas

pode encontrar-se o grande amor final

pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente

vai-se perdendo a voz, quase silêncio

(de “Antologia da Poesia Portuguesa.1940-1977”)

Viveu os primeiros anos em Goa e depois em Moçambique. Colaborou na revista “Pirâmide” e ficou conotado com o Surrealismo, embora o autor não se considerasse integrado em qualquer grupo literário. Incluído na “Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa” (1961) e na antologia “Surrealismo Abjeccionismo” (1963). Obra poética: “A Zona” (1958, fora do comércio), “Paralelo W” (1958), “Estrela Rutilante” (1960).

Leave a Reply