Brasil, meu Brasil brasileiro

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Brasil, meu Brasil brasileiro é uma ficção baseada numa memória de Ethel Feldman. Como forma de lembrar que no dia 7 de Setembro toda a nossa edição será dedicada ao Brasil, vamos neste espaço horário publicando textos de argonautas, textos que têm como tema central o Brasil. Ontem, um poema de Sílvio Castro; hoje, um conto de Ethel Feldman – Brasil, meu Brasil brasileiro:

 

Confundo a nossa mudança para Fortaleza com o golpe de 1964. A memória agarra os diálogos quase silenciosos dos meus pais.
– O Fernando queimou os livros na banheira…

Na cozinha, Nair colava os ouvidos à porta. O coração disparava e perguntava onde estava a festa da semana passada.
O Júlio tinha sido preso. Outros seguiram o mesmo destino. O silêncio forçado calava no coração a esperança do povo.

Meu pai abraçou-nos na despedida. Num DKW saía de São Paulo para Fortaleza. Nós seguiríamos depois. Beijou minha mãe, abraçou a baiana e pediu a ela que tomasse conta de nós.

Não sei quantos dias depois recebemos um postal. Uma fotografia de um clube a beira-mar. Uma seta desenhada, sugeria nossa futura casa.
A memória fez-me o favor de quase apagar a viagem de avião de São Paulo para Fortaleza. Na chegada meu pai, sempre bem disposto, sempre um pouco louco abraçava-nos. Uma casa em frente ao mar, sem forro no tecto, num bairro de pescadores.
Antes da escola, um banho de mar. No regresso das aulas, uma corrida para praia puxar a rede junto com os pescadores.

O Carequinha franzino, sorria envergonhado. Menino poeta, sabia de cor a canção do peixe enredado.
Nas noites mornas, ao redor da mesa, com uma cachaça por companheira, meu pai gravava as canções dos homens do mar. O gravador portátil era uma invenção nova. A cachaça abraçava o calor que o corpo pedia.
Um dia choveu. O povo na rua tirou a roupa, molhou o corpo. A terra sedenta bebeu toda água.

A morte vai apagando a vida. Na terra o suor de uma colheita perdida.
– Filhos já pari vinte… Será que o teu Maria, vai vingar?
Nas ruas os porcos comem as promissórias vencidas. Matar o bicho, dar de comer a fome.
Depois do peixe enredado o sol se despede. Nunca se atrasa. Nunca se antecipa. Os membros endurecidos anunciam o fim do dia. É hora de amar.

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