POESIA AO AMANHECER – 265 – por Manuel Simões

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M. S. LOURENÇO

( 1936 – 2009 )

 

A VIA SIMPLES

Enquanto eu bebo a respiração dum fruto

o tempo chama-me, pelo rio.

Eras uma fonte, no interior,

e procuro agora as tuas espáduas:

no apelo destes pássaros,

no fogo das acácias,

no sangue, que, pelas noites, me devoras.

Ah! Eu respiro! Tudo respira

neste fruto. As palavras levantam-me as pálpebras

e os teus pulsos sopram-me as têmporas.

Agora desço já, abaixo, ao Inconciliável:

encontro uma rosa, o humor feminino, um sarcófago.

Sim, tu és uma ânfora silenciosa e mastigo-te

como procuro a ligeireza do meu amor no mundo

incerto da sintaxe. Da sintaxe!

E agora tudo respira suavemente enquanto me

alimento do teu sangue e dos teus ossos de âmbar.

Respiro a tua voz exangue.

(de “O desequilibrista”)

Poeta e ensaísta de matriz filosófica. Foi igualmente teórico da Poesia Experimental.

Obra poética: “O desequilibrista” (1960), “Arte Combinatória” (1971), “Pássaro Paradípsico” (1979), “Os Degraus de Parnaso” (1991), “O Caminho dos Pisões” (2009).

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