SER DE ESQUERDA – por Henrique Neto*

*Nota da Coordenação – Com autorização expressa do autor,

trancrevemos este artigo do Jornal de Leiria.

Ao autor e ao jornal, endereçamos os nossos melhores agradecimentos.

Confesso a minha perplexidade sobre o que é hoje em dia ser de esquerda na arena politica portuguesa. Pessoalmente sempre me considerei de esquerda, lutei contra o anterior regime, estive e estou do lado dos mais pobres e dos mais desfavorecidos, defendo o Estado social, o aumento do salário mínimo, a educação e a saúde para todos e, acima de tudo, a liberdade, na justa medida que sempre considerei ser a liberdade um valor da esquerda. Continuo a defender o mesmo, mas começo a ter dúvidas sobre o meu posicionamento político, nomeadamente quando verifico as ideias e os comportamentosde muita gente que também reivindica ser de esquerda.

Por exemplo, confesso não ir à bola com as mulheres e homens que militam, muitos dirigem, partidos de esquerda e que mostram um soberano desprezo pela Pátria e pela Nação Portuguesa, a ponto de condenarem estas palavras, ou que relativizam as questões da segurança dos cidadãos, oua igualdade perante a lei, a estabilidade das instituições, ou o valor da iniciativa individual e que acham normal condenar pessoas na praça pública sem mesmo avaliarem com rigor o que está em causa, que pedem a demissão e insultam governantes sem justificar com alguma seriedade intelectual as suas razões e que escondem dos portugueses o que farão se e quando forem governo.

Dirão os leitores que os da direita fazem o mesmo. De acordo, mas isso eu sempre esperei que fizessem e por isso faz-me menos confusão, porque nunca fui de direita e, assim sendo, não me causa qualquer perplexidade que a direita seja como é. Com a esquerda é diferente, são meus irmãos, são da minha família, por isso não me é indiferente ter deos combater como sempre fiz com a direita.Mas o facto é que sou diariamente obrigado a fazê-lo, porque não posso concordar que, tal como a direita,a esquerda contribua, pela acção e pela omissão, para a ruína da Nação e, por tabela, da vida da maioria dos portugueses. Como não posso aceitar que deva estar calado apenas porque são os nossos, os da esquerda.

Vejam os leitores a minha perplexidade. Se o José Sócrates é de esquerda e governou como tal, então o que sou eu? Se os partidos de esquerda podem imitar a direita e enganar sistematicamente os portugueses, se podem não estudar os problemas com que nos debatemos com rigor e isenção, se o que vale é negar a realidade, ganhar mais uns deputados nas próximas eleições e não assumir responsabilidades, serei eu obrigado a estar calado apesar de não concordar? Ou se verifico que deputados e dirigentes da esquerda fecham os olhos a abusos de poder, aceitam erros e omissões politicas e governativas e convivem com o secretismo das instituições, desde que envolva gente sua, ou que por amizade, solidariedade ou interesse, a categoria não importa, fecham os olhos, devo fazer o mesmo?

Fui durante muitos anos militante do PCP e o que mais admirava no partido era a sua capacidade de abnegação e de sacrifício pelas causas do povo, a obrigatoriedade de dar o exemplo, a vontade de estudar bem os problemas antes de emitir opiniões, a pedagogia de fazer por merecer o que se reivindicava, a valorização permanente do conhecimento e da aprendizagem. Um partido de valores ao serviço do povo. Nesse tempo nunca tive dúvidas de que era essa a esquerda em que queria militar. Mais tarde, aceitei aderir ao PS com o objectivo de contribuir para a modernização e o desenvolvimento do regime democrático, fazer crescer a economia e, acima de tudo, fornecer a todos os portugueses a educação, o rigor intelectual e a capacidade de pensar bem o futuro e em liberdade.

Talvez seja uma utopia, mas continuo a considerar que é isto ser de esquerda e não a coabitação com os interesses económicos, ou fazer do povo português carne para canhão dos interesses eleitorais, ou esconder do povo a dura realidade, ou comprometer a estratégia a favor da táctica, ou repetir à exaustão soluções paradisíacas que todos sabemos que não saberemos, ou poderemos, concretizar. Para quando uma análise séria sobre o que é ser de esquerda, aqui e agora?

07-08-2013
Henrique Neto

Leave a Reply