Parece que chegou a vez da Síria. Lá vão eles, os do costume, ao ataque. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, do Iémen (neste país, ao que se sabe, a intervenção é sobretudo com os drones), do bombardeamento de uma inocente fábrica de produtos farmacêuticos no Sudão sob o pretexto de vingar um suposto ataque da Al-Queda, e de outros episódios, está quase a disparar mais uma intervenção à cow-boy. É dado assente para os líderes dos EUA, Grã-Bretanha e França que o responsável pelo massacre de há dias nos arredores de Damasco é o governo sírio. Nem o facto de os chamados rebeldes também possuírem gás sarin faz hesitar os entusiásticos líderes da Santa Aliança do século XXI. Neste momento a grande preocupação é anteciparem-se às conclusões do inquérito que a ONU está a promover, que eventualmente poderão não ser as mais favoráveis às suas pretensões.
Quem olhar para a situação mais atentamente reparará nos aspectos seguintes:
- O ataque ocidental, chamemos-lhe assim, vai fazer aumentar consideravelmente o número de vítimas.
- A Síria vai quase de certeza ser desmembrada.
- Os reflexos no Iraque e no Líbano vão ser enormes. No primeiro, os riscos de cisão vão-se agravar
- Israel vai aproveitar para tentar acabar de liquidar os palestinianos (como estarão a decorrer as novas conversações de paz anunciadas há dias?) e a população árabe do Neguev, e começar novas aventuras.
- A pressão sobre o Irão vai aumentar em grande escala.
Que se trata de uma manobra estratégica já pensada, e desejada, há algum tempo, é evidente. O seu interesse sob o ponto de vista humanitário é nulo. Tem havido ocasiões, no Próximo e Médio Oriente, em que se justificaria uma tal acção, mas tal não aconteceu. O caso palestiniano é por demais evidente, e os recentes acontecimentos do Egipto, que causaram pelo menos 1300 mortos (há quem diga que foram muitos mais) não mereceram uma simples menção à hipótese de intervenção. Leia-se a propósito em The Guardian, este texto de Seumas Milne:
http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/aug/27/attack-syria-chemical-weapon-escalate-backlash
Este ataque pode significar também o fim político de Obama. Pelo menos, poderá significar o fim da crença em que ele viria trazer alguma coisa de novo e diferente à política norte-americana, crença essa partilhada por muita gente de esquerda. Não é por acaso que as sondagens nos EUA indicam que a maioria da população se opõe a mais uma aventura militar. E é cada vez mais claro que a enorme desproporção de poderio militar entre os EUA e o resto do mundo é que representa a grande ameaça à paz no mundo, hoje em dia. Os líderes de um grande poderio militar acabam sempre a querer usá-lo. É a isso que estamos a assistir.

