EM ROMA SÊ ROMANO – Fernando Correia da Silva

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Acompanhando pai e tio, cerca de 1270 Marco Polo atravessa a Anatólia. Três venezianos a cruzar o norte da Turquemânia. Penetram na Tartária. Avistam o Monte Arafat coberto de neves eternas. Ali teria encalhado a Arca de Noé, diz-se, e Nicolo faz o sinal da cruz. Já perto da Geórgia, Marco debruça-se sobre uma fonte de óleo negro. «Os homens vêm de muito longe para recolher este óleo e em toda região não se queima outra coisa.» Petróleo do Baku, dir-se-á muitos séculos depois.

Seguem para sudoeste, acompanham o curso do rio Tigre. Atravessam região onde se degladiam múltiplas religiões: mongóis adoradores de ídolos, fiéis de Zoroastro, maometanos, nestorianos, jacobitas, etc. E chegam a Bagdad, a cidade dos minaretes dourados. Odaliscas por entre véus e cortinas de damasco, as 1001 noites. A Marco ferve-lhe o sangue, mas o pai e o tio não perdem tempo. Arrancam para Ormuz. Pensam contratar nave que os leve aos mares de Catai (China). Atravessam o Iraque infestado de assaltantes. A pilhagem é o terror dos mercadores. Os Polo envergam roupas locais e já falam muitas das línguas nativas. Nicolo avisa:  

 

– Filho: em Roma, sê romano. Se um mongol estranhar a tua fala, ou as tuas feições, diz-lhe que és árabe. E ao árabe diz-lhe que és persa. E ao persa diz-lhe que és hindu. Um navegante leva sempre um pedaço da pátria na sua nave. Já nós, andarilhos, se queremos morrer de velhice, temos que fazer nossa pátria de cada país que atravessamos. O mundo é variado e cada povo quer conformar o mundo à sua imagem. Mas nós, que palmilhamos o mundo, bem sabemos que ele é diverso. Bem sabemos que tanto vale uma imagem quanto vale a outra. Cala-te, não comentes, não discutas! Que nem o orgulho, nem o sarcasmo te desmontem. Filho, aprende a viver bem, morre velho! Percebes?           

Marco balança a cabeça. Jovialidade subitamente convertida em sisudez, em Roma sê romano


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