NOTA SOBRE A MORTE DE ANTÓNIO BORGES – PEQUENA CRÓNICA DE FARO – Nº 5 – (reedição). Por JÚLIO MARQUES MOTA

Morreu António Borges, um inimigo do povo, um homem que assumiu por fim a função de vender o património  produtivo de Portugal, segundo as decisões da potência dominante, a Troika. Detestava tanto o povo português na sua vida prática como intelectualmente detestava Keynes. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um serventuário dos grandes capitais, um homem que , na linha do que escreveu Fabius Maximus numa crónica recente, seria considerado um criado ao serviço da Plutocracia, não da Democracia. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem ao serviço do neoliberalismo puro e duro que está a ter como função o declínio do Ocidente a favor do domínio crescente do Oriente,  a favor de uma nova ordem internacional assente na multipolaridade onde os BRICS serão os novos centros do poder.  Esta é a tendência gerada pelo modelo de política de que tanto fez uso e que está  magistralmente descrita num trabalho escrito por Adam  Posen, Membro externo do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra.  Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem que ganhava centenas de milhares de euros enquanto que queria que os outros ganhassem tostões. Nada mais a dizer.

Resta pois para se ser coerente com a sua prática que o seu funeral seja submetido a concurso público e que ganhe então quem propuser o  preço  mais baixo e que se a sua campa ocupar  um espaço público então  o seu sucessor que a privatize o mais rapidamente possível.

E é tudo o que posso dizer sobre este senhor a respeito de quem há um ano escrevi uma crónica que aqui se repete, hoje, por respeito a todas as vítimas da sua política.

***

Pequena crónica de Faro – nº 5. Agosto de 2012

PARTE III
(continuação)

Como exemplo da combinatória Estado nacional e movimentos de capitais em que o Estado nacional tem com função principal “regular”, ou seja  garantir a desregulação que interessa aos capitais, ele é então a garantia de que esta desregulação  chega a bom porto, e como exemplo  temos a reforma de desregulação anunciada   para a City por Gordon Brown, em Maio de 2005,  garantindo-se por essa via que a situação inglesa seria então caracterizada pela linha  cujos extremos são mobilidade de capitais e Estado nacional.

Num documento oficial inglês  lê-se :

“Action Plan

The Chancellor of the Exchequer, Gordon Brown, this morning launched a Better Regulation Action Plan to boost flexibility and enterprise.  A full copy of the Action Plan is attached.

Speaking to business leaders in Downing Street at the launch the Chancellor said:

“Today Alan Johnson, John Hutton and I are announcing details of a risk based approach to regulation to break down barriers holding enterprise back.

The modern enterprise challenge is to enhance the flexibility needed for a successful economy and tackle the regulatory concerns we know all industrial economies face without sacrificing the standards a good society needs.

In the old regulatory model – which started in Victorian times – the implicit regulatory principle has been 100 per cent inspection of premises, procedures and practices irrespective of known risks or past results. The theory has been to inspect everyone continuously, demand information wholesale, and require forms to be filled in at all times, the only barrier to the blanket approach a lack of resources.

The new model we propose is quite different. In a risk based approach there is no inspection without justification, no form filling without justification, and no information requirements without justification. Not just a light touch but a limited touch. Instead of routine regulation attempting to cover all, we adopt a risk based approach which targets only the necessary few.

A risk based approach helps move us a million miles away from the old assumption – the assumption since the first legislation of Victorian times – that business, unregulated, will invariably act irresponsibly. The better view is that businesses want to act responsibly. Reputation with customers and investors is more important to behaviour than regulation, and transparency – backed up by the light touch – can be more effective than the heavy hand.

So a new trust between business and government is possible, founded on the responsible company, the engaged employee, the educated consumer – and government concentrating its energies on dealing not with every trader but with the rogue trader, the bad trader who should not be allowed to undercut the good.  And the risk based approach has wide application from environmental health, to financial services and even taxation.

But what does this mean in practice? How will we ensure a million fewer inspections every year, a reduction in inspections of one third, and a 25 per cent reduction in form filling?

That is why today we want to share with you our action plan which sets out the timetable and milestones for delivering the benefits of our agenda.  Specific measures we are taking, the details of how we will be driving forward this agenda.

As announced in the Queen’s Speech and following the Hampton Review we will legislate in the new year to reduce 29 regulators to just seven, embed the risk based approach at the heart of regulators’ statutory duties, make it quicker and easier to remove unnecessary regulations and reform the penalty regime, doing more to help companies comply with the rules but creating tougher penalties for persistent offenders.”

O texto é claro, claríssimo. A regulação financeira não será apenas flexível, mas será igualmente limitada e assim iremos desmentir a velha crença de que o mundo da alta finança quando não é regulamentado  se conduz sempre de forma irresponsável. Um espanto, portanto.

Falámos de Gordon Brown a dizer, na época, o mesmo que Gaspar, hoje. Mas hoje o  nosso Gaspar sabe muito bem que a sua hipótese é falsa ou então é louco, louco completo. Idealiza o modelo neoliberal, é o que o sabe, depois, com todo o aparelho repressivo a que se julga com direito  torce a realidade para que esta se  adeqúe ao modelo que tem na cabeça e assim vai-nos torcendo a todos nós. Inacreditável, mas é assim.

Esta é a razão pela qual em Portugal campeiam os novos ladrões, os patrões sem escrúpulos, produto não de uma educação lúmpen mas de um Estado em que os ministros intelectualmente mais parecem gente lúmpen e mais se parecem com os ladrões que eles mesmos querem apoiar, os patrões..

E, por ladrões, lembro-me de uma cena passada comigo aqui em Faro  no ano passado. Fui ao Fórum. Precisava de um produto vendido por uma cadeia multinacional em produtos de limpeza de pele. Fui bem recebido e aconselharam-me então um produto  para o problema por mim levantado. Entretanto precisava de ir ao Aki. Nada conhecia ainda de Faro. Perguntei ao empregado que me atendeu. Sabe-me dizer onde fica o Aki?  Pode não acreditar, mas não sei, foi o que ouvi como resposta. É o primeiro dia de trabalho aqui, continuou.

A minha atenção de cidadão e de professor universitário na altura ainda no activo deu-me um sinal de alarme. Estava aqui o tema que procurava. Emprego, era um bom tema, ou não era eu ainda um professor de Economia?

O seu primeiro emprego! Por onde andou, então?

Estive em Lisboa.

Onde?

No Colombo, onde era director de uma loja da  Bodyshop.

E veio para aqui porquê, se posso saber.

Sou daqui.

Meu caro é daqui desde que nasceu, é daqui desde que começou a trabalhar, não? A minha questão é então porque é  que saiu do Colombo?

 Por uma questão de segurança.

Segurança, falta de segurança, em Lisboa?

Falta de segurança interna e externa, diga-se já agora.

Pasmo com a resposta. A degradação do ambiente em Lisboa, natural diria eu, mas falar-se de segurança interna, numa empresa multinacional, ainda por cima! Viro-me e questiono naturalmente, o que queria dizer com a expressão segurança interna.

E a resposta implacável na sua expressão mínima das palavras utilizadas cortou o silêncio gelado que naquela  loja  se tinha instalado.

Simples, tive ladrões na loja, ladrões empregados. Veja-me isto. Só numa semana despedi quatro. Penso que aqui não será assim. Esclarecido, digo eu, mas para finalizar, como director de estabelecimento quanto ganha? Cerca de 1000 ou de 1200 euros foi o que se terá ouvido.

E saí, com vontade de respirar ar fresco. Sabia que da nossa  juventude , da melhor dela, estávamos a criar ignorantes  com diplomas que atestam isso mesmo. Em tempos escrevi uma carta ao Ministro de tutela Mariano Gago   desafiando-o para uma  análise séria ao saber apropriado pela nossa juventude  mais recentemente licenciada  e mais ainda, desafiei o Ministro e autoridades académicas a fazerem um levantamento exaustivo da situação universitária em Portugal e com a mesma seriedade que foi feito   ainda nos tempos do fascismo. Nos tempos do fascismo, digo bem.

Na escala de baixo, na escala daquelas que deixam a carreira pelo meio, pelo que me diz  o director da loja estamos genericamente a fazer ladrões, a outra face da mesma realidade,  a de estarmos a criar uma juventude que  está a  não dispor de  valores ou de conhecimentos   ou das duas coisas em simultâneo. E aqui lembro-me  de Maria, a da Rússia,  lembro-me da sua revolta pela nossa muito má   qualidade do ensino, lembro-me, a fazer fé no jornal Público de que muitos estudantes do Técnico  não são sabem  sequer simples operações  aritméticas! Que país se pode fazer assim? Nenhum, diremos claramente. O que todos historicamente sabemos é que a ignorância é o pasto de onde se alimenta a violência e a manipulação, com o que se alimentam as hordas políticas que a direita muito bem sabe manipular e utilizar.

O exemplo dado pelo  responsável pela loja Bodyshop de então mostra-nos algo de muito grave. Sabemos que cerca de 1/3 da população estudantil  abandona os seus estudos e mesmo que se tenha reduzido esta percentagem tal terá acontecido mais por conta do facilitismo   instalado no ensino em Portugal nestes últimos anos do que pela evolução da sociedade portuguesa, sabemos que grande parte dessa população é cultural e eticamente muito frágil. Tudo isto leva-nos  a poder afirmar que estamos a criar agora uma geração emocionalmente muito instável, assentando os seus comportamentos numa base ética que poderemos mesmo considerar como muito estreita.  A complicar este quadro,  não temos dúvidas de que uma parte dos considerados alunos de sucesso escolar patenteiam um terrível insucesso educacional e portanto de difícil inserção profissional num mundo em que a entrada no mercado de trabalho para além de ser cada vez mais aleatória é cada vez mais violenta. Estes últimos são criados e educados num sistema em que lhes retiraram os obstáculos para não haver insucesso escolar e para assim se baixarem as despesas com educação e por isso a maturidade emocional e lógica nunca foi desenvolvida. A estabilidade emocional também não será assim muita como muita não é a sua preparação profissional para a vida imediatamente a seguir. O quadro geral para acontecimentos como o relatado na loja da Bodyshop está pois criado e a política actual garantidamente tem-no aumentado e bem.

(continua)

_______

Para ler a parte II desta crónica, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/27/nota-sobre-a-morte-de-antonio-borges-pequena-cronica-de-faro-no-5-reedicao-por-julio-marques-mota-2/

1 Comment

Leave a Reply