ACEITAÇÃO DOS MITOS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E VARIÁVEIS PREDITORAS – IV, por Ana Afonso Guerreiro

Imagem2

(Continuação)

Príncipe encantado – desencantado

«És na verdade um mundo, ó Roma; mas sem o Amor

O mundo não seria mundo, e Roma não seria Roma.»

(Goethe, W. cit. in Barrento, 1998)

Descrevemos anteriormente, ainda que de forma sucinta, as variáveis preditoras sexismo ambivalente e cavalheirismo, bem como, procurámos exemplificar alguns dos mitos da violência doméstica e a sua aceitação.

Uma outra variável observada nas relações íntimas é o amor romântico (Narciso & Ribeiro, 2009). Isto significa que quanto mais romântica uma pessoa é, maior será a sua aceitação dos mitos da violência doméstica (Guerreiro, A.A. et al., 2011).

Vejamos então algumas das teorias do amor romântico mais retratadas na literatura, sendo que o que se pode afirmar consen­sualmente é que as relações românticas fazem parte de um processo natural da vida da maio­ria das pessoas e é um elemento comum em diferentes culturas, sociedades e momentos da História (Hatfield, Rapson & Martel, 2007 cit. in Andrade, 2009ª).

O amor romântico é definido por Branden (1988, cit. in Narciso & Ribeiro, 2009) como «uma apaixonada vinculação espiritual – emocional – sexual entre duas pessoas que reflecte uma elevada estima pelo valor de cada uma». O autor defende que para se amar romanticamente é necessário existir sobretudo admiração mútua. É indispensável uma vinculação profundamente apaixonada, afinidade espiritual entre os amantes, mutualidade e partilha ao nível da própria filosofia de vida. O amor romântico exige assim, um grande envolvimento emocional e uma forte atracção sexual. Para Branden para que se possa falar em amor romântico, é necessário que todos estes ingredientes estejam presentes na relação amorosa.

Por outro lado, a teoria triangular do amor de Sternberg sugere que o amor romântico é constituído por três componentes que formam simbolicamente um triângulo: intimidade, paixão e decisão / compromisso (Sternberg, 1997). A intimidade refere-se aos sentimentos de proximidade e aos laços emocionais que ligam o casal. A paixão é o conjunto de impulsos que levam ao romance, através da atracção física e concretização do acto sexual. A decisão / compromisso diz respeito à decisão de que se ama o outro, logo existe o compromisso de manter esse amor. De acordo com o autor, só podemos falar em amor romântico quando este triângulo é espelhado na relação.

Para Solomon (1990) o amor romântico é um processo em movimento (jamais passivo), em desenvolvimento, criação mútua e criação do si. Não o próprio si, nem exclusivamente o si do outro, mas sim um si partilhado.

Outra teoria é a teoria do apego e do amor romântico de Hazan e Shaver (1987, cit. in Andrade, 2009). De acordo com os autores, as pessoas têm diferentes orientações e histórias de vinculação na infância e precisamente por isso possuem diferentes crenças acerca do amor romântico. Bowlby (1988, cit in. Paiva & Figueiredo, 2003) acredita que as experiências vividas na infância são relevantes para a construção do self e na estruturação do mesmo e que os modelos internos dinâmicos então construídos vêm a manifestar-se na complexidade das relações interpessoais, íntimas estabelecidas mais tarde, na idade adulta.

Unânime é que de fato, o amor romântico produz um forte impacto nas relações íntimas e interpessoais. De acordo com Narciso e Ribeiro (2009), o amor romântico não existe apenas no início das relações, ele continua ao longo da vida das relações e é essencial para a construção de uma identidade partilhada, para os níveis de satisfação do casal e para a estabilidade e harmonia conjugal (Narciso e Ribeiro 2009).

Deste modo, o amor romântico é essencial para a felicidade das pessoas e contribui para elevar os níveis de bem-estar e satisfação dos casais. Contudo, as pessoas trazem para a relação as suas dúvidas, medos, inseguranças, entre outros problemas, o que pode realmente causar desilusão, conflito e desencantamento (Branden, 1988 cit. in Winter et al. 2008). De acordo com vários autores (e.g. Solomon, 1990), para existir um “nós” saudável, deve existir um “ele” e um “ela” independentes.

As consequências negativas da valorização do amor romântico, assim como do cavalheirismo paternalista patente no sexismo ambivalente, traduzem-se na aceitação dos mitos da violência doméstica (Giger et al., 2011) o que, por seu turno dá sustentabilidade à existência da própria violência doméstica.

«Ele não é ciumento, possessivo…apenas me ama loucamente…»

Leave a Reply