A FÁBULA DE “CAPUCHINHO VERMELHO”: O DESVIO RADICAL DA TRADIÇÃO – por Manuel Simões

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Gostamos de fazer surpresas – digam lá se estavam à espera de que viéssemos falar do Capuchinho Vermelho? Pois avaliar até que ponto esta fábula foi sendo alterada é tarefa a que Manuel Simões se propõe hoje.

Imagem1Tal como nos foi transmitida, esta é a fábula de uma menina que vai levar a merenda (manteiga e doces, noutras versões) à avó, encontra um lobo que lhe pergunta onde vai, que depois a precede, matando e engolindo a velhinha. A seguir, travestido de avó, mete-se na cama antes que chegue a menina. É neste momento que tem lugar uma conversação aparentemente inocente: «Que olhos grandes tens, avó!» / É para te ver melhor, minha filha». «Que orelhas grandes tens, avó!» / «Para te ouvir melhor, minha filha». Diálogo cheio de ternura, mas quando a menina diz: «Que dentes grandes tens!», o lobo responde: «É para te comer melhor!», salta da cama, agarra-a e está prestes a comê-la quando chega o lenhador a tempo de salvar a menina, matar o lobo, abri-lo para extrair a avó ainda viva.

Podemos interrogar-nos por que razão nos obstinamos a considerar a fábula de “Capuchinho Vermelho” como história para crianças. E, no entanto, sabe-se que os irmãos Grimm alteraram drasticamente a narrativa de modo a torná-la quase irreconhecível. Ora vejamos: segundo as versões mais frequentes de Capuchinho vermelho francês (de resto, em nenhuma das versões o capuchinho é vermelho), quer o lobo quer a menina comem partes do corpo da avó. É verdade que a menina não sabe que a sopa que o lobo lhe dá é feita de sangue, pelo que, no seu caso, se trata de canibalismo involuntário.

E as surpresas não ficam por aqui: enquanto a nossa versão se concentra sobre a figura do lobo, descrito como monstro antropófago, segundo a interpretação que a etnóloga Yvonne Verdier elabora a partir da análise de todas as versões francesas disponíveis (“Le petit chaperon rouge”), o papel do lobo é totalmente ocasional e secundário. Acima de tudo, nas variantes originais francesas a conversação entre o lobo e a menina é conotada por alusões eróticas: ele pede-lhe que se meta na cama, pedido que a menina satisfaz de boa vontade; e é por isso que as observações desta sobre o corpo da avó («Como és grande…! Como és peluda…! Como és forte…») suscitam respostas lascivas, modeladas segundo a fórmula: «É para… melhor!». Um diálogo íntimo, nada inocente, que nenhuma educadora estaria disposta a tolerar.

Também no epílogo das versões francesas não existe nenhuma figura masculina heróica, nenhum lenhador para enfrentar a espantosa fera e para a esquartejar de modo a extrair, viva e sã, a avozinha. Nessas versões Capuchinho liberta-se com a ajuda de outras figuras femininas, as lavadeiras que estão do outro lado do rio, para o qual ela se precipita, e lhe estendem um lençol, o mesmo que depois puxam ao lobo, acabando por afogá-lo. Além disso, o léxico das versões francesas sugere-nos que a menina é bem mais crescida do que aquela que os nossos livros de fábulas deixam perceber: “ma petite fille” pode ser “ minha filha” como “ minha neta”.

Ainda de acordo com Yvonne Verdier, em todas as versões francesas da fábula, o lobo, ao encontrar Capuchinho, pergunta-lhe qual o percurso escolhido para chegar a casa da avó: pela estrada das agulhas ou pela dos alfinetes? No século XIX, quando as várias versões foram recolhidas, isto tinha a ver com as fases da vida de uma mulher, visto que o enfiar  da agulha tem uma elementar conotação sexual: o alfinete poderia ser a metáfora da integridade da virgem, enquanto a agulha se referia à mulher adulta. Antes que Perrault e os irmãos Grimm tivessem purgado a narrativa para a adaptar às crianças, a alternativa agulhas-alfinetes encontrava-se em todas as versões, o que nos leva a concluir que a originalidade de todas as variantes que omitem aquele pormenor é supeita.

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A citação de alfinetes e agulhas sugeria ao ouvinte francês que se encontrava perante uma narração cujo núcleo era a sexualidade e a transformação da adolescente numa fase da sua vida. Passando à velhice, já não conseguiria, como a avó, enfiar uma agulha – em ambos os sentidos. Privadas, portanto, da pergunta do lobo sobre as agulhas e os alfinetes, as versões que nos foram transmitidas perderam aquele indício que teria permitido inserir a narrativa no mundo ritualizado da passagem generacional da mulher. E assim se transformou radicalmente a narrativa, e se construiu uma tradição fora do percurso da transmissão, oral e escrita, duma fábula imensamente rica de significado.

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