BREVE MEMÓRIA DOS ANOS DE CHUMBO – por Ethel Feldman

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Ethel Feldman, filha do escritor e argonauta, Fernando Correia da Silva, nasceu em São Paulo durante o exílio político de seu pai; da sua memória dos «anos de chumbo» surge esta ficção:

 

Quando se contorna a esquina dos 80 anos

Depois de  apagar as velas, na comemoração do seu 80º aniversário, diz:

– A morte não me vence. Vou viver mais cem anos. Sou bicho que renasce a cada século.

– Viveste na Grécia?

– Fui Platão

– E no Brasil ?

– Fui negro e escravo. Fiz um filho à menina herdeira da fazenda.

– E agora, quem és?

– Teu pai.

– E depois?

– Quem sabe do futuro?

Este é o meu pai. Nasceu em Lisboa, fez-me nascer no Brasil. Até o ano de 1964, vivemos em São Paulo. Com o golpe militar mudámo-nos para Fortaleza.

Antes, aconteceu uma editora de livros infantis, Giroflé, fundada com amigos. Fernando Lemos e Sidónio Muralha, entre os que na época acreditavam que a arte podia estar ao alcance de todas crianças. Pobres e ricas.

Eu sou pobre, pobre, pobre,

De marré, marré, marré.

Eu sou pobre, pobre, pobre,

De marré deci.

Eu sou rica, rica, rica,

De marré, marré, marré.

Eu sou rica, rica, rica,

De marré deci. (…)

Um dia chegou em casa com uma dúzia de discos. Histórias infantis e canções de roda. Ensinou-me a colocá-los no toca-discos, no meu universo infantil – vitrola. A agulha tinha um braço e como um passe de mágica, se estivesse na rotação certa, um grupo de vozes ocupava a sala.

Esta rua, esta rua tem um bosque..

Era uma vez uma orfã pobre, que de tão pobre e bonita casou-se com um príncipe. A miséria é recompensada. Queria ser a Cinderela, tenho pés pequenos como ela. Não transformei o sapo com o meu beijo, nem tive tranças longas para ser salva.

Em surdina, um grupo de homens planeava roubar a democracia. Conseguiram.

Papeis e livros queimados na banheira. Sussurros sobre amigos desaparecidos. Medo e pesar a compor a realidade.

Abraçou a baiana que trabalhava em casa.

– Toma conta deles…

Num DCW velho, viajou durante uma semana acompanhado de um amigo, numa época em que as estradas no Brasil, quase não existiam. Destino – Fortaleza.

Passados 15 dias chegou um postal a São Paulo. Estávamos na cozinha a almoçar e nossa mãe leu-nos em voz alta. Em breve estaríamos todos juntos de novo, menos a nossa Nair que ficava em São Paulo, porque a mudança a assustava.

A minha baiana negra de cabelo carapinha que aos sábados era esticado com um pente que parecia um ferro.

– Para onde você vai, Nair?

– Dançar..

Um fim de semana a suar a vida no salão. No fogão, o seu vatapá encantava as reuniões. Na panela, camarão seco, amor e muita cachaça, faziam a receita do sucesso.

Um avião que se demora para além da hora. Uma paragem forçada. Minha mãe e meus dois irmãos pequenos numa longa viagem para uma terra desconhecida a nordeste. Noite quente. Abraços e beijos.

Uma casa em frente a praia, num bairro de pescadores. Uma casa quase em ruínas, com dois coqueiros na parte da frente. Morcegos a voarem pelo teto. Uma cobra verde, verde e fina, em vez da água, quando se abria a torneira.

Uma manhã de angústia. Minha mãe assustada e meu pai feliz.

– Trouxe areia da praia, para as crianças brincarem.

Minha mãe em silêncio.

– Lá atrás, tem um quintal onde eles podem andar de bicicleta.

Minha mãe balbuciava o choque.

Em menos de 24 horas, a nossa vida mudou.

Uma única escola, tão diferente da outra onde eu tinha amado viver. Em São Paulo, uma escola de judeus progressistas. Em Fortaleza uma escola protestante que saudava a América. A escola foi informada que não estávamos autorizados a estudar religião. O mundo ganhava um novo contorno.

Em 1965 na nossa vitrola o Show Opinião, dirigido por Augusto Boal e produzido pelo Teatro de Arena. No palco Nara Leão, João do Vale e Zé Kéti.

A meio do disco, a Marcha de Quarta-Feira de Cinzas de Vinicius de Moraes:

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz

Meu irmão andava nos troncos dos coqueiros e subia como se fosse fácil a caminhada.

O fascismo tirou a cor do encanto, abafou o coração, mas dentro de peito a esperança reina contra a evidência.

Alguns anos depois, uma passagem por São Paulo, na minha adolescência, foi o intervalo de espera até ao 25 de Abril. Vingada a raiva, os olhos choram de alegria e a vida se confirma.

Meu pai regressa a Lisboa, conosco. O cravo vermelho é nosso.

Em 1984, faço parte de um milhão e meio de pessoas que estão na rua, em São Paulo, lutando pela democracia.

O cravo que tinha ficado rosa em Lisboa, é vermelho em cada face na rua, uma homenagem à vida, contra os fascistas que semearam a morte.

(…)
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar (…)

Que volte a Portugal e ganhe história.

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