* Joana Domingues é qualificada academicamente nas áreas de Recursos Humanos, Marketing, Relações Publicas, Sociologia, Psicologia e Mediação Intercultural,
Estudos realizados pela Casa Brasil mostram que a maioria dos imigrantes brasileiros que chegam a Portugal são jovens com idades compreendidas entre os 20 e os 35 anos, com incidência do sexo masculino sobre o feminino. Mais de metade encontram-se em Portugal sem família, ou seja solteiros ou divorciados, na sua maioria sem filhos, as suas características constituem o perfil do jovem audaz.
A presença do jovem brasileiro predomina nos setores de restauração e comércio, pelo que a sua visibilidade social se deve a alta exposição ao público consumista português. Diversos estudos apontam para a segmentação e etnicização do mercado de trabalho, que valoriza a simpatia e alegria dos Brasileiros (Machado,2003). No contato com o público, a personalidade brasileira é sobrevalorizada comparativamente a Portuguesa, já que estes são caraterizados de mais simpáticos e complacentes com os clientes que os próprios nacionais.
É de extrema importância definir com maior aproximação possível a perceção que existe do brasileiro em Portugal, e explorar as imagens que predominam no imaginário
coletivo português. Esta questão permite o conhecimento de duas entidades que têm de conviver forçosamente: num primeiro plano o fato de ser “estrangeiro” subordina o imigrante brasileiro, a uma opinião dominante dos nacionais sobre si, segundo é importante destacar as relações de poder que existem entre portugueses e brasileiros, onde o status social pode contornar as relações e jogos de poder entre nacionais e imigrantes brasileiros, por último as inter-relações que existem entre história, cultura e meios de comunicação fundamentam as interpretações sobre a construção simbólica da imagem do Brasil no quotidiano português.
As representações que circulam no imaginário português, segundo Teixeira Lisboa (2008) são a circulação massiva de produtos das indústrias culturais brasileiras, tais como a música, as telenovelas diárias, a dança, os costumes culturais, são fatores que fazem com que essa permanência no quotidiano coletivo português junto com o fluxo continuado de imigrantes brasileiros, intervenha na atual perceção portuguesa sobre o Brasil e os seus nacionais.
Segundo os dados provenientes do estudo de Teixeira Lisboa, 2008, apresentam-se os resultados de um estudo qualitativo sobre as perceções discursivas dos portugueses na caraterização do perfil e imagem dos brasileiros. O seguinte excerto de um individuo do sexo masculino fundamenta a imagem da mulher e as representações que a enclausuram no perfil que predomina durante décadas no senso comum português:
“ A alegria e o gosto pelo sexo são características que representam os brasileiros. Estão sempre em festa, a dançar aquelas músicas que fazem mexer o corpo todo. As brasileiras são as mais quentes do mundo! Deixam qualquer homem português….qualquer homem perturbado”. (Adulto, Homem, Lisboa)
A mulher brasileira quando confrontada com a imagem existente, sente a necessidade de redefinir-se como mulher, como brasileira, como pertencente a certa classe social. Segundo Padilla (2007) em concordância com estudos qualitativos realizados, existe uma mudança comportamental da mulher em confronto com o estereótipo presente. As suas estratégias de defesa vão de encontro a uma menor abertura e recetividade, pelo que se tornam menos eufóricas, mais introvertidas e consequentemente mais fechadas devido aos preconceitos negativos com que se deparam. A mulher brasileira sente-se débil e vulnerável por uma ideia globalizada e fortemente definida a seu respeito. A mulher brasileira sente-se “prisioneira” de uma imagem tão poderosa e enclausuradora.
Os meios de comunicação e a opinião pública responsáveis pelo processo de legitimação da identidade brasileira em Portugal, deveriam afastar-se de antigas representações estereotipadas, que sempre têm em conta quando se referem ao universo simbólico do Brasil e dos seus nacionais. O afastamento destas imagens que ainda persistem no imaginário português, possibilitariam na minha opinião uma relação mais aberta, menos estigmatizada entre nacionais portugueses e imigrantes brasileiros. Na minha opinião esta será a mais difícil mudança, já que é ainda mais difícil redefinir uma identidade no caso concreto do imigrante brasileiro em Portugal, que alterar um estereótipo que persiste ao longo dos tempos. Contudo, e dado que cada pessoa é um mundo, poderá ser muito rica a interação entre brasileiros e portugueses se os estereótipos são apaziguados no trato individual, de modo a possibilitar uma convivência menos tensa.
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Saiba mais em:
LISBOA, Wellington Teixeira (2008): “Imagens do Brasil em Portugal: mitos e mídia na construção de identidade.” Rev. Estud. Comun., Curitiba, v. 9, n. 20, p. 267-275, set./dez. 2008.
PADILLA, Beatriz (2007) ”Brasileras en Portugal: de la transformación de las diversas identidades a la exotización.”,14/2007: Femmes latino-américaines et migrations (2007).
PEIXOTO, João; PIRES, Rui Pena “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?”, Fundação Calouste Gulbenkian; PRINCIPIA; Março de 2007.
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