
Na primeira metade do sec. XX, o algarvio e poeta popular António Aleixo, não pára de rir:
Uma mosca semvalor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
Dá uma guinada, faz o balanço da sua vida:
Fui polícia, fui soldado,
estive fora da nação;
vendo jogo, guardo gado,
só me falta ser ladrão.
Volta a apontar o dedo às injustiças:
Co’o mundo pouco te importas
porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
quem só vê o seu proveito?
À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q’rer um mundo novo a sério.
Aleixo compreende até o motivo que lhe permite ver sempre ao longe:
Não é só na grande terra
que os poetas cantam bem:
os rouxinóis são da serra
e cantam como ninguém.
Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista…
Ver as coisas mais além
do que alcança a nossa vista!
Torrente algarvia! Melhor dizendo: lusitana! Nada consegue detê-la. Começou a fluir em cachão quando a língua portuguesa, de norte para sul, brotou na ponta ocidental da Península Ibérica.
