Notas de leitura sobre o texto de Víctor Lapuente “A direita sem Deus” publicado em El País – por Júlio Marques Mota

Trata-se de um texto à primeira vista muito bom, de escrita muito elegante, que nos apetece publicar por extenso sem nenhum comentário, com medo de o estragar. Primeiro impulso, primeira sensação de agrado, mas pensando bem, depois, senti um certo incómodo, ao reflectir melhor nas qualidades e depois nos defeitos que a elegância do texto não nos deixava ver. E esse olhar crítico que aqui vos deixo.

Começa Victor Lapuente por dizer:

 O objectivo do supermercado conservador do sul da Europa visa satisfazer as necessidades do maior número possível dos seus clientes. Renunciou ao capitalismo individualista com virtudes morais e sociais

 Fora de Itália, Berlusconi foi sempre levado um pouco a brincar. Mas faríamos mal ao desconsiderar o impacto de Berlusconi e do que ele significa para as outras democracias. Como lembra Alexander Stille, outros três fenómenos incubados em Itália também foram subavaliados inicialmente. A máfia, o fascismo e o terrorismo da esquerda (Brigadas Vermelhas) pareciam umas excentricidades italianas, não transferíveis para democracias mais sérias. No entanto, essas três supostas raridades converteram-se, com ou sem alterações cosméticas, em pesadelos em muitos outros países. Igualmente, o berlusconismo é exportável e, se nos concentrarmos nas suas características centrais, veremos que, na verdade, há muito tempo que está connosco.

Quais são as componentes do berlusconismo? Qual é a essência da superficialidade política? Julgo que a chave não está nos seus aspectos mais reconhecíveis: as mulheres para as suas festas, para as suas orgias, a televisão como espectáculo desinformador, o controlo quase monopolista dos meios de comunicação para atingir o poder. Nós podemos reconfortar-nos com a ideia de que o enorme poder político de Berlusconi foi o resultado de uma pessoa excepcional (um cidadão Kane pouco decente) numas circunstâncias extraordinárias (o colapso do sistema de partidos italianos na década de noventa). Mas Berlusconi é simplesmente a ponta visível de um iceberg enorme que se passeia pelo Mediterrâneo: a direita sem princípios. Uma direita sem Deus, se por Deus quisermos dizer algo que está acima do nosso interesse egoísta. […] Aqui poderemos ir um pouco mais longe na lógica do modelo neoliberal. Perdeu Deus, perdeu-o há muito, com os Diabos. Como escreveu Fiódor Dostoiévski, se Deus não existe, tudo é permitido. Ora no modelo neoliberal tudo é permitido, logo Deus aí está excluído. Faz parte do modelo a sua exclusão. e é toda essa exclusão que está pressuposto na liberalização dos mercados. Deus, na óptica do grande escritor russo é a Ordem, são regras. Ora, no modelo neoliberal, o pressuposto é exactamente a soberania dos mercados, o desaparecimento do Estado porque todas as suas intervenções são piores que a sua não-intervenção, a concorrência  de uns contra os outros e que ganhe sempre o mais “eficiente”.  Essa  é a visão que domina ainda hoje, vejam-se todos os Estados europeus vergados a esta soberania, a dos mercados, onde tudo é valido. Vejam-se o caso dos swaps e não há nenhuma autoridade financeira europeia que levante a voz, a favor dos Estados-membros, porque… primeiro os mercados. E não são só os políticos do Sul nesse trajecto, nessa subserviência…Desde a Suécia conservadora, passando pelos boys da Finlândia  ao reino do ignorante Passos Coelho, a lógica é a mesma.

Trata-se, portanto, da visão contrária à da Social-Democracia em que os mercados devem ser regulados, o Estado deve ser  actor e regulador nos mercados, o Senhor dos tempos, dos relógios, em que cada mercado tem o seu próprio ritmo, o seu próprio relógio,  o seu próprio tempo. E o ajustamento desses relógios cabe à sociedade, ao Estado.  E seria bom que nos explicassem porque é que tantos socialistas embarcaram naquele barco, o do neoliberalismo puro e duro,  e ainda não desembarcaram dele.

 Diz-nos depois:

É verdade que é uma direita associada à Igreja, mas uma Igreja que abandonou a promoção da moral social. Como explicou Miguel Mora para este jornal, o apoio que Berlusconi tem desfrutado na Igreja tem-se baseado na doutrina, inconcebível em outras confissões cristãs, do pensador católico Vittorio Messori: “Mais vale um filho da puta a fazer boas leis para a Igreja do que um fidelíssimo católico que nos prejudique “. A Igreja, portanto, tem muito que fazer para se converter num farol de moral e esperemos que o papa Francisco assuma rapidamente essa tarefa.

Entretanto, a direita do Sul da Europa promove um laissez-faire sem restrições sobre o comportamento individual. Quase vale tudo para enriquecer ou para vencer eleições. Isto observa-se na tolerância que os partidos de direita têm mostrado face à proliferação de todo o tipo de actividades ilícitas ou opacas: desde a manipulação das estatísticas gregas até ao complicado caso Gürtel-Bárcenas, passando por todos os escândalos em torno de Berlusconi. Os partidos de esquerda também têm engolido uma  boa dose de corrupção, mas na direita não há reflexos de profunda introspecção nem de propostas de regeneração. […] Aqui lamento haver dois pesos e duas medidas. Primeiro, o modelo neoliberal teve como seus principais dinamizadores, Ronald Reagan e Margaret Thatcher, é verdade, mas na sua construção europeia estão incluídos quase todos os partidos ditos socialistas, a esquerda dominante, diríamos. Esta é uma verdade que deve ser reafirmada, porque afinal se trata de um modelo em que as classes dominantes, com diversas cores políticas, de direita e de esquerda, embarcaram. Seria então bem melhor traçar e explicar  teoricamente o trajecto que levou a que uns e outros tenham seguido o mesmo caminho. Um exemplo de puro pormenor. Não foi Strauss-Kahn quem  convidou Borges para o FMI dando-lhe uma outra notoriedade. E não tenho dúvidas que Strauss-Kahn era um homem claramente de esquerda, à margem à sua doença que de resto era conhecida por muita gente, como por muita gente é conhecida a doença de um outro político importante, nacional ou estrangeiro.

Depois continua o autor:

Mas não é nas práticas ilícitas, mas nas legítimas, que a ausência de Deus na nossa direita se percebe com mais clareza. Se olharmos para outros países da OCDE, vemos uns programas políticos de direita regidos por uns princípios, venham eles das universidades (dos economistas liberais) ou das Igrejas (de intelectuais de matriz luterano-cristã-democrata), que aspiram a construir uma sociedade mais virtuosa e justa. Assim, o laissez-faire económico fica temperado por um conservadorismo cívico (no Reino Unido), compassivo (nos EUA), ou social cristão (na Europa continental), para além de um ideal de mobilidade social. […] A postura intelectual da direita britânica é um exemplo. O conservadorismo de Cameron parte de um diagnóstico do seu país como uma sociedade sem coesão e propõe, em conjunto com medidas de dinamização dos mercados, uma combinação de princípios paternalistas e de devolução de poder às comunidades locais e aos bairros que bebe directamente de Edmund Burke, considerado o pai filosófico do conservadorismo moderno ocidental. Bom, do nosso ponto de vista não, claro, pois Burke dedicou toda a sua vida a denunciar o “capitalismo de compadrio” e o individualismo rastejante destruidor do tecido social ―duas tendências bem estimuladas nas nossas latitudes.

Pela sua parte, thatcherismo e reaganismo estavam fundamentados nas ideias dos intelectuais ―como Milton Friedman, Friedrich Hayek ou William Niskanen― que consagraram a sua vida a pensar como poderíamos ter sociedades melhores. A vida política para muitos conservadores europeus implica um diálogo permanente com intelectuais e, em muitos casos, são os próprios políticos que escrevem panfletos ou livros (e não apenas essas listas de boas intenções chamadas programas eleitorais), propondo uma nova narrativa ideológica. Em vez desse esforço intelectual criativo, os políticos daqui muitas vezes costumam entrar na política vencendo uma oposição e depois a esperar a sua vez na cadeia ascendente de nomeações administrativo-políticas. Podemos obviamente discutir sobre o que entendem outros conservadores europeus por uma sociedade mais justa e se as suas propostas geram mais custos do que benefícios. Mas, e aqui radica a questão, não podemos discutir com as nossas direitas o que é justiça social ―nem sequer como activar o ascensor social ou a compaixão― porque são conceitos simplesmente fora do seu discurso habitual.

O autor fala-nos de Cameron e esquece nesta penada o homem que calçou as botas de Thatcher e marcou profundamente a Inglaterra e que ganhará agora cerca de um milhão por mês? E que até a palavra de Deus foi vender aos Estados Unidos, a uma Universidade! E esquece que não haverá a este nível diferença entre a agenda de Kissinger e a de Toni Blair. Onde haverá diferença é no discurso, de direita, o de um, considerado de esquerda, o do outro. Os efeitos, iguais.  E não foi  Blair, participante activo numa guerra que destruiu por inteiro um país,  considerado depois mediador internacional sobre as questões que esse mesmo país levantava?  Diz-nos o autor:

“Enquanto os políticos das direitas continentais e anglo-saxónicas procuram a sua inspiração em universidades e em igrejas, os nossos parece que se inspiram num supermercado. O objectivo não é construir um relato que misture individualismo capitalista com umas virtudes morais e sociais. O objectivo do supermercado conservador do sul da Europa é satisfazer as necessidades do maior número possível de clientes. Assim, numa prateleira, exibem leis ao gosto da hierarquia da Igreja, Opus, Legionários de Cristo e outros grupos católicos. Na da frente, mas é a mesmíssima prateleira que está em frente, oferecem Eurovegas e fatos à medida legais para quem traga negócios para o país, ainda que seja à custa de promover o vício (1). Na prateleira mais à frente, metros e comboios para satisfazer o ego de qualquer Presidente de Câmara ou cacique provincial que se preze. É completamente igual que nós endividemos as gerações futuras com projectos de infra-estruturas megalómanas e de duvidosa rendibilidade ―algo impensável nas direitas do Norte da Europa, onde a responsabilidade orçamental é prioritária face ao eleitoralismo de curto prazo.

Mas a direita mediterrânica move-se basicamente para ganhar eleições. Não há projecto transformativo da sociedade por detrás. É isto que une Berlusconi e Rajoy, apesar dos seus estilos serem diametralmente opostos. Carlos Cué começava uma das suas mais recentes análises sobre o nosso presidente dizendo que “Rajoy sabe presumir em privado o seu profundo conhecimento das leis da política. Em 30 anos ele já viu de tudo, repete. E essa experiência e a sua forma particular de ser quase sempre lhe dita que o melhor é esperar”. É toda uma declaração de intenções. Para Rajoy, a política não parece que seja uma luta de ideias para transformar o mundo, onde cada segundo conta; a política parece-se mais com uma luta de pessoas para ocupar cargos e, como na guerra, a inacção pode ser uma grande aliada.” […] Com os diabos de novo. Temos políticos de merda, é certo, mas não é apenas no Sul, é em toda a Europa. Quem se pode esquecer do rapa o tacho do Parlamento inglês no tempo de Brown, e este rapar dos dinheiros públicos ia desde os filmes de pornografia, ao resto, e tanto à direita como à esquerda.

Um outro exemplo. Se assim não é, digam-me então qual é o discurso democrático ou discurso logicamente fundamentado que é produzido na central de intoxicação que dá pelo nome de Bruxelas? Nenhum, e dizem-me que os políticos de merda estão no sul da Europa!

Diz-nos o autor:

Dir-me-ão que a esquerda também coxeia ideologicamente, incapaz de formular uma mensagem inovadora. Que leva anos imersa numa longa travessia do deserto sem encontrar a ideologia prometida. Mas a diferença é que intelectuais e políticos de esquerda ―no Sul como no Norte da Europa― continuam a procurar incessantemente. Não passa uma semana sem que leiamos algum artigo com propostas sobre como dinamizar o projecto Social-Democrata ou de esquerda. Há-os mais ou menos promissores, mais ou menos fundados em trabalhos académicos sólidos, mais ou menos pragmáticos. Mas não há nenhuma dúvida de que há uma constante luta intelectual por detrás. […] Aqui um comentário bem duro: é grave que se diga que a esquerda apenas coxeia ideologicamente. Se falamos da esquerda oficial, digam-me onde está um discurso que seja da dita esquerda que analise profundamente as razões da crise. E se o há, digam-me qual a esquerda oficial que se terá regido por essa análise, na sua prática política? Digam-me quantos partidos da esquerda dominante não aprovaram nas respectivas Assembleias Nacionais, os Tratados que a direita europeia institucionalizou? E digam-me que Esquerda exigiu a proibição da reunião do BCE em Sintra, que pode muito bem ser vista como insulto ao povo português, pois pretender-se-á provar, contra os Espanhóis, a calma, a servitude, do povo português.

E por fim diz-nos o autor:

A esquerda, portanto, continua a andar, inspirada por uns ideais que transcendem o interesse individual (uma sociedade sem pobreza, com igualdade de oportunidades); ou seja, inspirada pelo seu Deus. O deserto é duro, mas Deus dá forças para continuar. A nossa direita mediterrânica, pelo contrário, parece como se, renunciando a caminhar, tivesse decidido acampar num confortável supermercado, entregando-se à adoração do bezerro de ouro, entre casinos, envelopes com dinheiro e confetes.

Mas aqui perguntamos ao autor: de que esquerda está ele a falar aqui. O deserto é duro, é seco, não há água para beber, ( a teoria para tudo isto perceber) não há sombras para nos defendermos, ( não há organizações de cidadania a substituir a tal esquerda que nada produz), não há pão para nos alimentar ( a luta de classes morna incapaz de gerar a esperança ). O deserto é duro, é certo, e dessa dureza resta uma certeza histórica, a de que a cegueira de tudo isto fará duramente com que a esquerda renasça da precariedade que a incompetência teórica tem consentido, renasça pela violência, o que é muito grave, porque quando muita gente perde o sentido da vida também o motor da História nos diz que esse sentido também se ganha mas fazendo com que muitos dos outros percam também a própria vida. A revolução a que aludia Pacheco Pereira, talvez.

E é tudo o que tenho a dizer sobre o artigo de Víctor Lapuente Giné, sobre La derecha sin Dios, publicado pelo El Pais, em Setembro de 2013.

————————- 

Víctor Lapuente Giné é professor no Instituto para a Qualidade de Governo da Universidade de Gotemburgo.

 Tradução e notas de Júlio Marques Mota

 (1)   N.T. O autor refere-se aqui possivelmente ao “negócio” com a empresa Las Vegas Sands para implementar na região de Madrid o maior casino europeu, com atropelo a todas as normas europeias e às leis de trabalho em Espanha que a direita já se propôs modificar para enquadrar este projecto de milhares de empregos e de prostitutas também. E tudo isto com o silêncio de Bruxelas! A dívida é soberana, pois então, que importa aqui a sociedade, dirão os burocratas de Durão Barroso

quisermos dizer algo que está acima do nosso interesse egoísta.

………

 

Diz-nos depois:

É verdade que é uma direita associada à Igreja, mas uma Igreja que abandonou a

1 Comment

  1. *Que teia de aranha mais bem urdida . * *Uns importam-se outros exportam-se e o Z Povo a servir de testa de ferro -na verdade a poltica como a batata “porca”e sem forma ” * *Maria *

Leave a Reply to Maria de saCancel reply