CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA (6) – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

Projecto de Bodas

Poema: Natália Correia (in “Passaporte”, Lisboa: Edição de autor, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 207-208; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 155-156) Música: Teresa Gentil Intérprete: Teresa Gentil* (in CD “Natália Descalça”, Descalças – Cooperativa Cultural, 2006)

Hoje apetece que uma rosa seja

O coração exterior do dia;

E a tua adolescência de cereja

No meu bico de Isolda Cotovia.

Hoje apetece a intuição dum cais

Para a lucidez de não chegar a tempo;

E ficarmos violetas nupciais

Com a lua a celebrar o casamento.

Apetece uma casa cor-de-rosa

Com um galo vermelho no telhado

E os degraus duma seda vagarosa

Que nunca chegue à varanda do noivado.

Hoje apetece que o cigarro saiba

A ter fumado uma cidade toda.

Ser o anel onde o teu dedo caiba

E faltarmos os dois à nossa boda.

Hoje apetece um interior de esponja

E como estátua a que moldar o vento.

Deitar as sortes e, se sair monja,

Navegar ao acaso o meu convento.

Hoje apetece o mundo pelo modo

Como vai despenhar-se um trapezista.

Abrir mais uma flor no nosso lodo:

Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.

Hoje apetece que a cor dum automóvel

Seja o Egipto de novo em movimento;

E que no espaço duma gota imóvel

Caiba a possível capital do vento.

Hoje apetece ter nascido loiro

Como apetece ter havido Atenas;

E tu nas curvas rápidas de um toiro.

E eu quase inatingível como as renas.

Hoje apetece que venhas no jornal

Como um anúncio. Sem fotografia.

E inventar-te uma lenda de cristal

Para reflectir a minha biografia.

* Teresa Gentil – guitarra e voz Maria Simões – voz (recitação) Produção – Descalças – Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores) Produção executiva – Sara Seabra Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, entre os dias 20 e 28 de Outubro de 2006 Mistura – Cláudia Rangel e Teresa Gentil

A EXALTAÇÃO DA PELE

Poema de Natália Correia (de “Biografia”, in “Poemas”, Porto: Edição de autor, 1955; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 62; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 69) Recitado por Rita Neves* (in CD “Poesia de Natália Correia”, col. Selecta, Música XXI, 2007)

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.

Sem lírios e sem lagos

e sem gesto vago

desprendido da mão que um sonho agita.

Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu

suspensa de mundos cintilantes pelas veias

metade fêmea metade mar como as sereias.

* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn

REBIS

Poema de Natália Correia (de “Rebis”, in “O Vinho e a Lira”, Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 301; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 230) Recitado pela autora* (in LP “Improviso”, Guilda da Música/Sassetti, 1973; CD “Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora”, CNM, 2011) Música: António Victorino d’Almeida

Oh a mulher como é côncava

de teclas ter no abdómen

de sua porção de seda

ser o curso do rio homem

como é mina espadanar de água

na cama abobadada de homem

gargalhada de lustre se sentada

dique de nuvens estar de dólmen!

Oh o homem como é ângulo

aberto de procurar

o sítio onde nasce o oiro

na salmoura da mulher mar

como é cúpula de copular

nadador de braçadas de mirto

como é nado de a nado formar

o quadrado da mulher círculo!

Oh os dois como se fundem

na preia-mar dos lençóis

despidos como fogo e água

deus de dois ventres ferozes

e quatro olhos de fava!

* António Victorino d’Almeida – teclados, percussão Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos Técnico de som – Hugo Ribeiro

(Continua)

1 Comment

  1. As premonições de Natália Correia
    F”A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista”.
    F”A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!”
    F”Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente”.
    F”Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica”.
    F”Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão”.
    F”Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?”
    F”As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir”.”
    Natália Correia
    Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993
    (Todas as citações foram retiradas do livro “O Botequim da Liberdade”, de Fernando Dacosta).

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