SOBRE UMA GRANDE E DURADOURA AMBIÇÃO, SOBRE O PASSADO; SOBRE O FUTURO DA ÍNDIA – Por SATYAJIT DAS – V

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Satyajit Das, Maio de 2012.

(CONTINUAÇÃO)

Hoje não temos nenhumas infraestruturas (…).

A Índia é atormentada pelas suas infraestruturas inadequadas. Em sectores críticos como energia, transportes e abastecimento de serviços públicos fundamentais há uma escassez significativa. Maus investimentos e decisões lentas e inadequadas tomadas pelo governo constituem uma barreira  forte ao desenvolvimento.

A pressão política para manter baixos os custos de abastecimento de serviço públicos fundamentais tem impedido o investimento. No sector da electricidade, os organismos públicos encarregues do fornecimento, que compram a energia aos produtores e a vendem aos utilizadores residenciais, têm sofrido perdas enormes. Os governos estaduais não sentem nenhuma motivação para aumentarem as taxas de consumo a retalho, apesar da subida dos preços que os produtores de energia cobram aos serviços de abastecimento público.

Os produtores de electricidade não conseguem obter carvão suficiente do monopólio estatal das minas de carvão no país, que tem sido incapaz de aumentar a produção para corresponder às exigências de novas fábricas. Alguns produtores de electricidade foram obrigados a investir no exterior para garantir o fornecimento em carvão. As tentativas de aumentar os preços dos bilhetes de comboio falharam, tendo inclusivamente o partido do próprio ministro dos caminhos-de-ferro vindo a opor-se à proposta exigindo que o ministro seja demitido da pasta que representa.

Cada vez mais, os problemas estruturais e a pobreza histórica de projectos provocam um aumento significativo da apreensão nos investidores estrangeiros, olhando estes para estas medidas muito cautelosamente, contribuindo assim, e de modo significativo, para uma escassez de capital estrangeiro direcionado para investimento em infraestruturas.

Embora se constate uma força de trabalho jovem e em crescimento, existe uma escassez de competências, de instrução e de formação, que se deve ao facto de o sistema de educação pública ser disfuncional, pois 40% dos estudantes não completam a escola. Cerca de 40% da força de trabalho é constituída por gente analfabeta, sendo que a força de trabalho indiana tem apenas uma taxa total de alfabetização de adultos de 66%, aquém da taxa do seu parceiro dos BRIC’s, a China, que é de 93%.

Algumas universidades, especialmente os 16 Institutos Indianos de Tecnologia, são de nível mundial. Mas a sua capacidade limitada significa uma escassez significativa. Algumas estimativas prevêem uma escassez de 200 mil engenheiros, 400 mil de outros graus de ensino e 150 mil trabalhadores de formação profissional específica, como pedreiros, electricistas e canalizadores nos próximos anos. Em contraste, há entre 60-100 milhões de gente sub-empregada ou de excedentes de trabalhadores pouco qualificados na agricultura.

Existe a preocupação de aferir se os graduados das universidades possuem o conhecimento suficiente para desempenharem as suas futuras tarefas, sobretudo naquelas áreas em que é necessário marrar muito para passar nos exames. Os empregadores têm de investir pesadamente para os tornar ” prontos para trabalhar”. Os diplomados que viajam pelo exterior para obter diplomas estrangeiros frequentemente preferem fixarem-se num trabalho no exterior, por razões essencialmente remunerativas, pois os ordenados são mais elevados, o que contribui para uma escassez de mão-de-obra desta índole, que por sua vez tem levado a grandes aumentos de salários.

Contudo há também grandes questões culturais. Uma revista indiana Business Today publicou uma reportagem intitulada Brats no Trabalho, queixando-se da atitude dos jovens trabalhadores. Os salários mais altos aumentam o custo das empresas indianas, tornando-as internacionalmente menos competitivas e alimentam a inflação doméstica. Acresce que a escassez de trabalhadores qualificados também torna mais difícil atenuar a lacuna de infraestruturas. Estes factos foram bem ilustrados pelos problemas em torno de New Delhi Commonwealth Games.

E aqui se coloca a questão pertinente, a Índia tem a vontade colectiva e a capacidade de ultrapassar este seu “mar de problemas”?

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(continua)

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Para ler a Parte IV deste trabalho de Satyajit Das, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/09/18/sobre-uma-grande-e-duradoura-ambicao-sobre-o-passado-sobre-o-futuro-da-india-por-satyajit-das-iv/

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