REVISITAR A SOCIEDADE PORTUGUESA PELA MÃO DE MARIA KEIL – ILUSTRAÇÃO por clara castilho

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Ju Godinho e Eduardo Filipe, comissários da da exposição “A Arte de Maria Keil”, no Barreiro, em 2007, escreveram no catálogo: “Maria Keil é senhora de uma linguagem gráfica muito especial. O seu trabalho revela um notável domínio do desenho e da composição. As suas figuras, estilizadas, são de uma profunda expressividade e dinamismo, estabelecendo de imediato uma profunda cumplicidade com o leitor. A escolha e abordagem dos temas denotam um olhar crítico e um sentido de humor apurado, traços transversais na obra de Maria Keil. O resultado seduz pela sensibilidade, pela aparente simplicidade.”

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Comecemos pelas ilustrações em revistas, por serem as primeiras no tempo, e chamando a atenção para o facto de ter colaborado com revistas em que se reuniam os intelectuais do momento, muitos com posições que os levaram a serem perseguidos pela ditadura em vigor.

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Os livros mais recentes, tantos que ilustrou, de escritores uns mais famosos do que outros, variaram um pouco, mas sempre com um estilo identificável. Falemos de alguns: de Matilde Rosa Araújo,  Sophia de Mello Breyner Andersen, Maria Cecília Correia, Esther de Lemos, Aquilino Ribeiro, Alice Vieira…

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Num texto de Susana Silva, apresentado na Casa da Leitura, com o título “A ilustração de Maria Keil: Análise gráfica e composição de página”, podemos obter uma boa análise desta parte da sua  obra. Diz-nos a autora: “Maria Keil foi a responsável pelo reconhecimento da Ilustração enquanto meio de produção artística com um lugar próprio. Ao assumi-la exactamente como a pintura, a escultura ou a arquitectura, retirou-a do estatuto de menoridade que até aí vinha mantendo.

Maria Keil sempre trabalhou em ilustração (à qual dedica mais de meio século da sua vida) «recusando» utilizar os registos e os mediadores característicos da expressão das chamadas «artes maiores». Enveredou conscientemente por uma linguagem que vive da sua madura e assumida ingenuidade, em registos que raramente usaram a tela e o óleo como suporte de expressão, vindo, no entanto, a tornar-se num nome sonante no panorama artístico nacional.

[—] Durante quase quatro décadas, Maria Keil foi experimentando diferentes soluções gráficas de forma a potenciar a percepção quer do texto verbal, quer do texto visual, vindo a comprovar-se a extrema importância dos estudos que levou a cabo para a ilustração da primeira obra destinada a crianças – Histórias da Minha Rua.

Acreditamos, deste modo, que um dos segredos da força e da vitalidade do seu trabalho reside neste conjunto de estratégias conscientemente traçadas para relacionar imagem e texto, a que o leitor não pode deixar de ser sensível. Assim, a sua obra serviu, também, como uma estratégia de garantia da sua «sobrevivência» intelectual: permitiu-lhe manter uma «discreta» autonomia ideológica e um meio de intervenção pedagógico, simultaneamente lúdico e artístico.

Maria Keil aproveita a materialidade do livro para construir projectos livres, projectos artísticos, concretizando aquilo que no Oriente se considera imprescindível para o exercício da liberdade: a definição de limites. A ilustradora aceita o texto como limite natural, necessário para a prática da criatividade. Deste modo, livro após livro, a artista ensaia uma expressividade que reflecte o ambiente de modernidade que a envolve.”

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Como ela me representou no livro “Histórias de minha casa”, 1976.

De realçar que Maria Keil também ilustrou livros com textos seus. Sobre um deles falarei noutro post – A Árvore que dava Olhos. Outro – Os Anjos do Mal já o abordei.

No texto de apresentação da exposição patente no Palácio da Cidadela em Cascais, e de que temos vindo a falar, João Paulo Cotrim diz-nos:

“Se usarmos os livros como marca, foram cerca de 70 (entre Começa uma Vida, em 1940 e A Árvore que dava Olhos, em 2007) sempre a ilustrar: textos literários, muitos deles para crianças, mas também outros de cariz publicitário ou em torno de visões pessoais. De livro para livro, de encomenda para pedido, de linguagem para disciplina, Maria Keil não se cansou de brincar, outro modo de dizer experimentar. Contorno fino e solto de pinceladas grossas e manchas de cor forte, sobre vidro ou papel mata-borrão, o seu gesto serve invariavelmente a expressão máxima do movimento, cenário perfeito para as figuras humanas afirmarem uma elegância moderna, a harmonia do homem que se ergue. Quase sem querer, propôs uma ética: cada personagem, cada um de nós, se estiver atento ao que o rodeia, nasce para ser árvore dançando no meio da praça.”

Dancemos no meio da praça!

 

 

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