Retomamos a publicação de peças em um acto, que interrompemos no período estival, com este trabalho inédito de
António Gomes Marques. Com formação académica na área das Letras e da Filosofia, Gomes Marques é um apaixonado pelo teatro. No período que se seguiu à Revolução de Abril, foi presidente da APTA, Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, com uma actividade assinalável onde se inclui a ralização de dois festivais nacionais de teatro. A sua peça, Um caso sem importância, revela os seus conhecimentos da arte teatral, nomeadamente das práticas de encenação. O conteúdo, conta-nos um episódio da luta pela liberdade de expressão. Sem maniqueísmos, mostra o raciocínio dos «defensores da ordem e da moral» e os argumentos que um jovem «democrata e republicano» lhes coloca. Um diálogo sem o dramatismo de outros que decorreram no cenário sinistro do quartel-general da policia política. Embora num só acto, o texto da peça excede o espaço comportável por um post. Como fizemos com trabalhos anteriores, apresentamo-la dividida em segmentos.
Sobe o pano.
No lado direito do palco, deverá dar-se a ideia de um recanto de café, de modo que facilmente se compreenda que esse recanto está isolado.
No lado esquerdo, será reproduzida uma sala, semelhante a qualquer pequena secção de um organismo oficial. No centro desta sala colocar-se-á uma cadeira. O semi-círculo para este centro será construído pelas secretárias. Numa das secretárias haverá uma máquina de escrever; nas outras, o indispensável.
Entre estes dois locais de acção, ficará uma cortina fixa, com uns desenhos sóbrios e de bom gosto, e uma poltrona que será o local de acção.
(O Encenador terá toda a liberdade para respeitar ou não o que acaba de se descrever)
Ao subir o pano, vê-se o Rapaz sentado no café lendo um livro. Na sua frente, a indispensável «bica» ou um copo vazio, etc.
Quando, por duas ou três vezes, se ouve o ruído de um automóvel, o Rapaz olha para o fundo da plateia, como se estivesse olhando para a rua, e vê as horas. Pretende-se, assim, dar a ideia de que está à espera de alguém (se se utilizar outra forma que dê a ideia do que se pretende, pode usar-se).
Por fim, vindos do interior do café, aproximam-se dois homens que aparentam 30 e 35 anos de idade, respectivamente, que são os Amigos esperados. Cumprimentam o Rapaz sorrindo. Sentam-se.
1.º Amigo
– Desculpa o atraso. Tivémos um furo.
Rapaz
– Não tem importância. Esperava-os por ali (indica o fundo da plateia).
1º. Amigo
– Entrámos pela outra porta (sorrindo) para melhor observarmos o ambiente.
Empregado
– Os Senhores estão servidos?
Pedem qualquer coisa que o empregado servirá no momento mais oportuno.
1.º Amigo
– Sabes que «eles» continuam por lá?
Rapaz
– Não! Mas… prenderam mais alguém?
2.º Amigo
– Não. Depois de nos terem interrogado, foram pedir informações sobre ti a diversas pessoas. Foram, até, junto de uma tua antiga colega do liceu!
Rapaz
– (Sorrindo) Foram ontem a minha casa e …
1.º Amigo
– (Rápido e olhando o 2.º Amigo, como quem resolveu uma dúvida) Então foi por isso que não conseguimos falar ontem contigo!
Rapaz
– Mas vocês estiveram cá ontem?
2.º Amigo
– Foi a minha mulher que telefonou para o teu emprego para confirmar o nosso encontro de hoje. Disseram-lhe que não tinhas ido trabalhar.
Rapaz
– Estou convencido de que lá nada sabem. Quanto ao vosso postal, só ontem o recebi e com data de há cinco dias!
1.º Amigo
– A data que traz refere-se à data em que foi posto no correio.
Rapaz
– Agora, não vamos pensar que este atraso também é obra deles.
2.º Amigo
– Admiravas-te, se o fosse?
Rapaz
– Julgo-os capazes disso e de muito mais. No entanto, sou de opinião que desta vez não pretenderam mais do que atemorizarem-nos.
Os tipos apareceram-me em casa às sete da manhã. Estava a começar a levantar-me quando tocou a campaínha da porta de entrada. (Como num àparte) Não sei porquê, pensei logo que seriam eles.
A minha senhoria mandou-os entrar para a sala, pensando que seriam pessoas amigas, onde aguardaram que eu me vestisse.
Mais tarde, ela disse-me ter estranhado ser eu procurado por três pessoas ao mesmo tempo, embora nunca pensasse que fossem da polícia. Eu, logo que os ouvi falar, não tive quaisquer dúvidas.
Fui ter com eles, que, depois de me identificarem, me disseram terem ordem para passar busca ao meu quarto.
1.º Amigo
– Quanto tempo demorou a busca?
Rapaz
– (Tentando recordar) Não mais de duas horas.
1.º Amigo
– E apreenderam-te alguma coisa?
Rapaz
– Cópias de uma carta para um amigo, em que chamo fascista ao regime e falo do modo como liquidaram a greve dos pedreiros; uma revista com estudos sobre o nosso século XIX; uma peça de teatro , O Judeu, de Bernardo Santareno, que nem sequer está proibida e que, portanto, poderei dizer que me foi roubada; e, ainda, uma poesia da autoria do amigo a quem dirijo a carta e que me é dedicada. Levaram-me também uma pequena compilação de redacções de um curso de educação de adultos, que eu pacientemente havia copiado. No fundo, levaram-me tudo isto apenas para me chatearem.
2.º Amigo
– E onde foi feito o interrogatório?
Rapaz
– Na sede da Pide, na António Maria Cardoso. Foi um interrogatório «muito bem intencionado», como eles próprios lhe chamaram.
No momento preciso em que a fala anterior termina, as luzes deixam de incidir sobre o canto do café para passarem a iluminar a sala de interrogatórios já descrita.
Vê-se o 1.º Polícia consultando um dossier, sentado a uma secretária, de frente para o público e o 2.º Polícia aguardando de pé. Junto a esta secretária.
Entram, por uma porta que se abre junto à estante que se encontra de lado, o Rapaz, o 3.º e o 4.º Polícias.
1.º Polícia
– (Levanta-se e aproxima-se da cadeira que está ao centro) Sente-se nesta cadeira.
O Rapaz senta-se ficando de perfil para o público e olha para as estantes procurando ler os títulos dos livros. O 3.º e o 4.º Polícias dirigem-se às suas secretárias, uma quase em frente da outra, atrás do Rapaz.
(Continua)
