Poema: Natália Correia (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I e II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999) Música: Mário Pacheco Intérprete: Mísia* (in CD “Drama Box”, Liberdades Poéticas, 2005
Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.
Aberta a porta selada,
Sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
Como dizer o silêncio?
Inúteis os meus anéis
Já os troquei por poemas,
Se hão-de perder-se os papéis
Voam com as minhas penas.
Só sei que, neste destino,
Vou atrás do que não sei…
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.
Ficou entre nós o tempo
Que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.
Ficou a morte caída
Antes de tempo no chão
E uma estátua dividida
Pela linha do coração.
Há dias em que sou monja
Há outros em que sou fêmea
E, embruxada, na fogueira
Do amor ponho mais lenha.
Como se eu já existisse
Antes do sol e da lua
E se a morte me despisse
Eu não me sentisse nua.
Quando me derem por morta
De lágrimas nem uma pinga:
Um trevo de quatro folhas
Tenho debaixo da língua.
E nada de biografia
Senão a da lua nova:
O que escreverem um dia
Os astros na minha cova.
* [Créditos gerais do disco:] Mísia – voz José Manuel Neto – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Luís Cunha – violino Ricardo Dias – piano e acordeão António Aguiar – contrabaixo Victor Villena – bandoneon (Hartenhauer) Arranjos – José Manuel Neto, em colaboração com Carlos Manuel Proença Conceito e produção artística – Mísia Produção executiva – Inês Mota / Liberdades Poéticas, Lda. Gravado nos Estúdios Xangrilá (Lisboa), Studio Plus XXX (Paris), Studio de la Seine (Paris), Audio Spot Studio Digital (Madrid), Gallery Studio (Londres), Todd’s Studio (Nova York) Engenheiro de som – Silvio Soave
Nuvens Correndo num Rio
Poema: Natália Correia (“Nuvens correndo num rio”, in “Rio de Nuvens”, Coimbra: Edição de autor, 1947; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 15; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 41) Música: Valter Rolo Intérprete: Inês Duarte* (in CD “Este Fado”, Iplay, 2012)
Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
* Valter Rolo – piano Bernardo Couto – guitarra portuguesa Diogo Clemente – viola José Marino de Freitas – baixo acústico Bruno Baião – violoncelo Produção e direcção musical – Valter Rolo
Ricochete
Poema: Natália Correia (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo] Música: Popular (“Não se Me Dá Que Vindimem” e “Meninas, Vamos à Murta” – Beira Baixa) Intérprete: Ana Laíns* (in CD “Quatro Caminhos”, Difference, 2010)
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?
Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?
Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?
[instrumental]
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?
Chora flores dentro de nós
Deste soluço suspenso
Que silêncio é esta voz?
Que palavra é o silêncio?
Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?
Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?
[vocalizos]
Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?
* Diogo Clemente – guitarra acústica Marino de Freitas – baixo acústico Bernardo Couto – guitarra portuguesa Paulo Loureiro – clarinete Vicky (Hugo Marques) – percussão Ana Laíns – coros Produção e arranjos – Diogo Clemente Assistente de produção – Vilma Costa Produção executiva – Samuel Lopes, Ana Laíns & António Cunha Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Montes, e no Lisboa Studio, por Luís Delgado & Diogo Tavares Mistura e masterização – Luís Delgado & Diogo Clemente, no Lisboa Studio
RICOCHETE
(Natália Correia, in “Passaporte”, Lisboa: Edição de autor, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 202-203; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 152)