Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota introdutória
Em férias não tenho televisão e apenas o jornal Público por companhia diária para me dar as notícias. No final de Agosto dou comigo a ler uma notícia breve sobre a forte descida do valor da rupia. Espanto-me? Não. Naturalmente assim, a liquidez mais que abunda, os mercados estão descontrolados, os capitais especulativos só ganham atacando, países, empresas, populações inteiras, portanto. É este o caso e este caso interessa-nos porque nos dá mais um exemplo do que vale hoje um pequeno ou médio país face aos ataques dos mercados de capitais. Vale…nada. Foi nessa base que lançámos a pergunta, Morrer por estar no euro, morrer por sair a sozinho do euro ou qual a outra saída?
Como se assinala no texto face aos mercados cambiais:
“Isso restringe as opções políticas disponíveis para as economias dos pequenos países, limitando na prática a sua capacidade de influenciar as taxas de câmbio e a actividade económica. Respondendo a uma pergunta sobre a abordagem da Nova Zelândia, o ministro das Finanças Bill English declarou o óbvio com uma desarmante honestidade: “para influenciar a taxa de câmbio precisamos de um bom par de 100 mil milhões de dólares americanos para que nos levem a sério. Sem isso, estaríamos fora da zona de guerra com uma zarabatana na mão”.”
Pois bem, a India um dos pilares dos BRIC’s, o terceiro pais, o do I, está agora perante a política dos três D: D de default, D de desvalorização fortíssima, D de deflação interna, tudo termos que agora os portugueses lamentavelmente conhecem bem.
Ou seja, sair do euro sozinho e como pequeno país para saír da crise e ficar na floresta que são os actuais mercados internacionais, mercados, seja do que for, tal a desregulação, mostra que se quer sair de uma crise para ficar noutra, nada mais. Iremos pois dedicar uma série de textos à India e começamos por este de Satyajit Das já que a questão da guerra das moedas está na mesa da reunião do G20, minto, da reunião do G-00.
E deixemos uma ou duas pequenas histórias de desencantar
Durante a crise asiática, um grupo de poderosos fundos especulativos, hedge funds, construi fortes posições curtas sobre acções cotadas na bolsa em Hong Kong, levantando-as de empréstimo ( no mercado Repo, possivelmente) com o compromisso de entrega a prazo com juros. Foram depois e imediatamente vendidas no mercado à vist: Com a receita obtida com esta venda compraram-se imediatamente a seguir ou em simultâneo dólares americanos com os dólares Hong Kong obtidos pela venda dos títulos de empréstimo. O cálculo dos especuladores era o seguinte: As vendas em massa de dólares HK e compra de dólares americanos obrigaria as autoridades de Hong Kong a actuarem na defesa da sua moeda, neste caso a comprarem os dólares HK que os especuladores estavam a vender e para isso utilizaria as suas reservas cambiais. De duas coisas, uma: ou as autoridades conseguiam manter a sua taxa de câmbio ( estabelecida portanto via mercado) mas para isso as reservas não chegavam!!! Portanto impunha-se imediatamente a seguir aumento das taxas de juro, Mas aumento das taxas de juro tem um efeito imediato nas cotações das obrigações! O valor das obrigações desce obrigatoriamente. Os especuladores ganhariam não pela baixa do dólar HK que o governo conseguiria defender com estes dois instrumentos de política económica mas pela descida dos títulos que entretanto eles , os especuladores, teriam vendido a descoberto, a famosa short selling de que nestes últimos tempos tanto se tem falado. Na segunda hipótese, o governo exaurido, a lembrar a Inglaterra no SME, esgota as suas divisas e não consegue salvar o valor da sua moeda. Bom, estamos a ver. O dólar HK desce de valor e aqueles que entretanto tinham passado de dólares HK para dólares USA podem calmamente regressar e embolsar a diferença nas taxas e a multiplicar pelos milhares de milhões deslocados e regressados. Se o governo utilizasse a lógica de agora, a lógica da soberania dos mercados, tudo estaria falido. Aliás teríamos um crash na Bolsa quer pelo lado das obrigações quer pelo lado das acções, com tudo a descer, como na Índia agora. Simplesmente o governo decidiu não jogar o jogo dos mercados. Neste caso nada têm a ver com os cobardes da União Europeia para quem a soberania dos mercados é mais importante que a independência das nações, que a própria Democracia. Que fez então o “nosso Governo” de Hong Kong. Fez swaps, arranjou divisas, sustentou o mercado cambial e mais, e mais… começou ele próprio a comprar os títulos em baixa pela agressão dos mercados, o que na Europa não se pode fazer, mas que fez também o governo alemão, às escondidas, em 1975 para estabilizar os mercados! E o governo aguentou a parada, mas sejamos claros no mundo global, a parada foi aguentada e com coragem e bem, porque os outros especuladores, os hedge funds estrangeiros, acreditaram no governo, acreditaram que este seria capaz de bloquear a aventura e, por isso, não se meteram nela. Mas mesmo assim, a não se ter tratado de um ataque planetário como agora se faz, é certo que, no quadro neoliberal, se o governo jogasse as regras de mercado, o mercado teria dado cabo dele, e apenas pelo ataque de uma meia dúzia de hedge funds! Mas dada a reacção do governo que se não se vergou à soberania dos mercados, foi assim que Hong Kong foi salvo mas, sublinhe-se, foi salvo porque os outros hedge funds internacionais confiaram na eficácia do governo e não se aventuraram para não saírem depenados. Mas sublinhemos aqui, como muito bem o sublinha Pierre-Noel Giraud, o importante foi a confiança no Governo mas esta confiança, esta, constrói-se, e o que nós vemos é que na Europa os nossos dirigentes são incapazes de a criar, deixando o continente entregue à voragem dos mercados e estes entendidos agora como sendo globais e não apenas como um grupo de hedge funds como foi em Hong Kong. E nem com uma zarabatana ficamos!
Uma segunda história. Imaginemos que disponho de mil milhões de dólares e de um poder de endividamento 4 a cinco vezes superior. Comprei na época da história acima contada títulos de um dado país do Sueste asiático, a Indonésia. Penso numa estratégia de ataque. Começo a vender no mercado títulos daquele milhar de milhões de dólares . Entretanto penso ganhar mil milhões em dólares dentro de 6 meses. Compro a prazo e em regime de plena calma 2 mil milhões de dólares contra o pagamento em rupias, na data da entrega. Como sou uma figura mundial nem margem me é exigida, sou digamos uma espécie de Warren Buffet. Começo a vender a prazo 2 mil milhões em títulos de que até disponho. Nada disto é público. O que começa a ser público é que começo a fazer no mercado à vista a mesma operação, não a simétrica a, a de compra, começo também aqui a vender os mesmos títulos e a entrega-los imediatamente. Começo a lançar pequenos rumores insistentemente que se vão espalhando até que começa a circular a informação privilegiada de que eu estou a desfazer-me dos títulos do governo. É o pânico geral. Todos começam a fazer o mesmo, os títulos descem e quando descem à altura que julgo a ideal compro então o equivalente aos meus dois mil milhões de dólares, com uma decote de 50%. Para ajudar a esta minha festa, os estrangeiros ao sentirem a pressão na venda de títulos tentam fugir rapidamente e invadem o mercado acelerando a descida dos títulos mas simultaneamente procuram dólares para saírem. O governo abana, as taxas de juro disparam e atingem os 50 %, a moeda desvaloriza fortemente, como agora na Índia, e a economia afunda-se. Entretanto chega a altura de entregar os títulos que antes tinha vendido a prazo. Entrego-os, recebo em rupias o equivalente a dois mil milhões de dólares, troco pelos dólares comprados muito antes no mercado a prazo e vou-me embora para o meu paraíso fiscal de eleição, que pode ser um veleiro de luxo a navegar em águas internacionais como era o caso de Jimmy Goldschmit, onde me espera a minha equipa de analistas financeiros para prepararmos a nosso próxima jogada. No bolso, estão mil milhões de dólares que roubei ao povo da Indonésia. Simplesmente assim.
Depois disto, acompanhem-me em ler a série de textos sobre a tragédia da Índia, o outro lado do espelho, não de Alice, mas de um mundo terrível onde a soberania nacional se tende a subordinar à mecânica opressora dos mercados, como a Europa é disso um claro exemplo.
Júlio Marques Mota
