CELEBRANDO ANTÓNIO DOS SANTOS – 1 – por Álvaro José Ferreira

António dos Santos, de seu nome completo António dos Santos Caio Castanheira, nasceu em Lisboa (no Hospital de São José, freguesia do Socorro), a 14 de Março de 1919.Aos 15 anos de idade, começa a cantar fado em recintos amadores, vindo aprofissionalizar-se cerca de quatro anos mais tarde, em Março de 1938, no CaféMondego. Em 1943, casa-se com Julieta Rebelo Martins com quem terá cincofilhos. Para fazer face aos crescentes encargos familiares, ingressa na marinhamercante (Companhia da Mala Real Inglesa e Blue Star Line), viajando muito epor longas temporadas (chegou, por exemplo, a permanecer dois anos nos EstadosUnidos da América). Mas nunca deixou de cantar, mantendo ao longo de duas décadas uma nítida preferência pelo fado jocoso. E é precisamente nesse registoque grava o seu primeiro disco, o EP “Um Congresso de Gatos”(Alvorada, 1959) que inclui, além do tema-título, “A Moda Traz Cada Coisa”,”Boa Resolução” e “Um Macho Inteligente”.

Alguns anos antes, abrira no Beco do Azinhal, em Alfama, o restaurante/casa de fados”Solar” do António dos Santos, que ficará popularmente conhecido comoo “Cantinho do António”. Nesse espaço de convívio e deconfraternização fadista, actuava para clientes e amigos, acompanhando-se a sipróprio à viola. Assim se sedimenta e afirma um novo estilo de interpretação,nostálgico e dolente, que ficará conhecido como a balada de Lisboa.Incentivado pelo técnico de som Hugo Ribeiro, grava em 1964, para a Valentim deCarvalho, o seu primeiro EP de baladas, sob o título genérico de”Alfama-Lisboa”, contendo “Minha Alma de Amor Sedenta” (quese tornará um dos seus temas mais emblemáticos), “Recordando”,”Uma Chuva de Tristeza” e “As Tuas Mãos”. Segue-se, no anosubsquente, o EP “Nostalgia de Alfama” que, além do tema homónimo,inclui “Disseste-me Adeus”, “Fado Triste” e “IlusãoPerdida”. Em 1968, sai o EP “Fado É Canto Peregrino”, compostopor, além do tema-título, “Gaivotas em Terra”, “Partir É Morrerum Pouco” (que fica como o seu grande cartão de visita) e “Ficas aSaber”. Os doze temas desta trilogia de EPs (que serão reunidos nacompilação “Minha Alma de Amor Sedenta”, 1972) constituem osupra-sumo da produção de António dos Santos e garantem-lhe um lugar de relevo,e singularíssimo, na História da Música Portuguesa. Todas as composições são dopróprio António dos Santos, que também assina três letras, sendo as outras nove da autoria de António Veloso Reis Camelo (duas), Mendes de Carvalho, FigueiredoBarros, Carlos Miguel de Araújo, Augusto Mascarenhas Barreto (três) e MariaAlexandrina. António Pessoa assegura sempre o acompanhamento à viola, contandocom a ajuda, no terceiro EP, da viola baixo de Liberto Conde. António dos Santos recebeu então o epíteto de “Baladeiro de Alfama”,que se tornou ainda mais popular após a actuação, em 1969, no programatelevisivo “Zip-Zip”. O artista ainda gravaria mais dois discos – oEP “Penso Que Já Não Existes” (1971) e o LP “É Assim a MinhaAlfama” (1977) – mas retomando a linguagem tradicional do fado e sem omesmo brilho que o celebrizou na balada.Faleceu a 18 de Setembro de 1993, aos 74 anos de idade, na cidade natal, nãodeixando seguidores do seu estilo inconfundível, apesar de alguns fadistas,como Carlos do Carmo, Beatriz da Conceição, Mísia e Hélder Moutinho, teremgravado temas seus.

Discografia:

– Um Congresso de Gatos (EP, Alvorada, 1959)

– Alfama-Lisboa (EP, Columbia/VC, 1964)

– Nostalgia de Alfama (EP, Columbia/VC, 1965)

– Fado É Canto Peregrino (EP, Columbia/VC, 1968)

– Penso Que Já Não Existes (EP, Philips/Phonogram, 1971)

– Minha Alma de Amor Sedenta (LP, Columbia/VC, 1972; CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [reúne os 12 temas dos 3 EPs editados pela Valentim de Carvalho, selo Columbia]

– É Assim a Minha Alfama (LP, Roda/Vadeca, 1977)

– António dos Santos: Saudade (LP, EMI-VC, 1986) [mesmo conteúdo do LP
“Minha Alma de Amor Sedenta”, 1972]

– O Melhor de António dos Santos (CD, EMI-VC, 1992) [mesmo conteúdo do LP
“Minha Alma de Amor Sedenta”, 1972]

António dos Santos, apesar do seu superlativo legado, é nome votado ao  ostracismo pelo editor da ‘playlist’ da Antena 1. E se isso acontece com o  beneplácito de Rui Pêgo, seria de admirar que este tomasse a iniciativa de lhe  render a devida homenagem no dia em que se assinalam os 20 anos do seu  desaparecimento. Mesmo tendo a rádio pública a obrigação de divulgar e  acarinhar o nosso património musical mais valioso e perene e de, ironicamente,  até difundir um ‘slogan’ que diz “Antena 1: uma rádio com memória”.

O blogue “A Nossa Rádio” não podia deixar de celebrar o emérito  artista e apresenta uma série das suas mais sublimes criações. A pensar nos  seus admiradores e, sobretudo, naqueles a quem a rádio tem negado a  oportunidade de o descobrir.

Não Tarda a Neve

Poema: António Nobre (excerto ligeiramente adaptado de “Adeus!”)
[texto integral >> abaixo]

Música: António dos Santos

Intérprete: António dos Santos* (in EP “Penso Que Já Não Existes”,
Philips/Phonogram, 1971)

Adeus! Ó Mar, quero que me respondas,

Águas tão altas! dizei, dizei:

Quais mais salgadas? as vossas ondas

Quais mais salgadas? as vossas ondas

Ou as que eu choro, e chorarei?

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,

Lua dos Meses, ora por nós!…

Ó Mar antigo dos Portugueses,

Ó Mar antigo dos Portugueses,

Ó Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,

À tua casa que eu deixei lá!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

No meu regresso, que sol fará!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

No meu regresso, que sol fará!

* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa

Pais da Silva e Martinho d’Assunção – violas

José Maria Nóbrega – viola baixo

Produção – Phonogram

Gravado no Estúdio Nacional Filmes, Lisboa

(Continua)

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