POESIA AO AMANHECER – 294 – por Manuel Simões

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LUÍS MIGUEL NAVA

( 1957 – 1995 )

ESPINHOS

O réptil de que somos as entranhas

abertas nas consciências

emerge-nos da terra, onde, poisadas,

as vísceras,

pintadas e nostálgicas

de serem uma raiz,

se agitam como

se alguém as embalasse e as víssemos,

ainda palpitantes,

cobrirem-se de espinhos, nós

que, contra o céu que se divide, assim

expomos as entranhas

que somos e as feridas

que, como treva ainda mal cicatrizada,

se rasgam lentamente à superfície.

(de “Vulcão”)

Poeta, crítico literário e tradutor. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas. Organizou uma “Antologia de Poesia Portuguesa.1960-1990” (1991, em português e em francês). Publicou: “Películas” (1979), “A Inércia da Deserção” (1981), “Como Alguém Disse” (1982), “Rebentação” (1984), “O Céu Sob as Entranhas” (1989), “Vulcão” (1994). A sua obra foi reunida em “Poesia Completa. 1979-1994” (2002).

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