SOBRE O MITO DO ‘MERCADO LIVRE’ E SOBRE COMO FAZER QUE A ECONOMIA FUNCIONE PARA TODOS NÓS – Por ROBERT REICH

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Robert Reich, 16 de Setembro, 2013

Uma das ideias mais enganadoras  continuamente difundida pela direita (pelos insondáveis estrategas utilizados e pelos meios de comunicação social) é a de que o “mercado livre” é uma realidade natural e inevitável, existindo para aquém e para além do governo. Então, toda e qualquer desigualdade ou insegurança que este venha a criar está para além do nosso controle. E qualquer que seja a maneira que procuremos para  reduzir a desigualdade ou a insegurança — para fazer a economia funcionar para todos nós — são restrições injustificadas contra a liberdade do mercado e inevitavelmente terá resultados perversos, errados.

De acordo com esta visão do mundo, se algumas pessoas não recebem o suficiente para viver, é porque o mercado determinou que não valem o  suficiente. Se outros açambarcam milhares de milhões, é então porque eles os merecem . Se milhões de americanos continuam desempregados ou se os seus apoios sociais  estão a diminuir  ou se trabalham em dois ou três empregos a tempo parcial e sem terem  nenhuma ideia sobre quanto irão  ganhar no próximo mês ou até na semana que vem, isso é muito ruim; é apenas o resultado do mercado.

De acordo com esta lógica, o governo não se deve  intrometer através de salários mínimos, de altos impostos sobre os altos rendimentos , dos gastos públicos para conseguir aumentar o volume de emprego, da regulação sobre as actividades empresariais  ou com qualquer outra coisa, porque o “mercado livre” sabe fazer  melhor.

Na realidade, o “mercado livre” é um enorme conjunto de leis  sobre:

(1) o que pode ser possuído e negociado (genoma? escravos? Material  nuclear? bebés? votos?);

(2) em que termos (igualdade de acesso à internet? o direito de organizar sindicatos? monopólios empresariais ? o tempo em que as patentes estão protegidas?);

(3) em que condições (drogas venenosas? alimentos inseguros? enganosos esquemas de Ponzi? produtos derivados não cobertos por seguros? locais de trabalho perigosos?)

(4) o que é privado e o que é público (polícia? estradas? ar puro e água limpa? saúde? boas escolas? parques e playgrounds?);

(5) como pagar  para o quê  (impostos, taxas de utilizador, preços individuais?). E assim por diante.

Essas regras não existem na natureza; Elas são criações humanas. Os governos não devem “intrometer-se” com os  mercados livres; os governos organizam e mantém-nos. Os mercados não são “livres” face às leis; são as leis  que os definem.

A questão interessante é a de se saber quais  as regras que se devem procurar levar a cabo e concluir. Elas podem ser concebidas  para maximizar:

– a eficiência (dada a atual distribuição de recursos), ou o crescimento (dependendo do que estamos dispostos a sacrificar para obter esse crescimento)

– ou ainda a equidade (dependendo das nossas ideias sobre uma sociedade decente). Ou alguma combinação de todas as três características  — que não estão necessariamente em concorrência umas com as  outras.

A  história sugere-nos, por exemplo, que se a prosperidade for  mais amplamente partilhada, teríamos uma maior taxa de  crescimento.

As leis  ainda podem ser concebidas  para defender,   sustentar   e expandir  a riqueza de uns poucos no topo e manter quase todos os outros relativamente cada vez mais pobres e economicamente com mais precariedade e insegurança.

O que nos leva à questão política central: quem deve decidir sobre as leis  e sobre os seus principais objectivos? Se a nossa democracia estivesse a  funcionar  como deveria, presumivelmente os nossos representantes eleitos, os directores dos organismos públicos  e os tribunais os estariam a fazer as leis mais ou menos de acordo com o que a maioria de nós queremos que  as leis sejam . A economia estaria então a funcionar para todos nós.

Em vez disso, as leis estão a ser  feitas principalmente por aqueles  que têm  o poder e recursos para comprar os políticos, os reguladores  e até mesmo os tribunais (e os advogados que estão por detrás deles ). Como o rendimento e a riqueza se concentraram  no topo assim são eles que então tem influência política. E a influência mais importante é determinar as leis do jogo sobre as quais se regula a sociedade .

Não é por acaso  que  estas são as mesmas pessoas que querem que cada um de nós e quase todos os outros continuemos  a acreditar na ficção de um imutável “mercado livre”.

Se queremos reduzir as desigualdades selvagens e as inseguranças que agora estão a minar  a nossa economia e a nossa democracia, nós não deveremos  ser dissuadidos pelo mito do “livre mercado”. Podemos fazer com que a economia funcione  para nós, ao invés de apenas funcionar para  alguns no topo. Mas a fim de mudar as leis, as regras, nós devemos  exercer o poder que é suposto ser o nosso.

Robert Reich, The Myth of the ‘Free Market’ and How to Make the Economy Work for US, disponível em: http://robertreich.org/post/61406074983

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