Segunda Parte
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Quanto ao segundo grupo de mistificadores, gente mais inteligente e mais hábil, que não faz uso da força, considero como figura de proa Olivier Blanchard, economista-chefe no FMI. Num documento que todos consideramos fundamental, depois de nos dizer:
“Iremos demonstrar que, nas economias desenvolvidas, uma consolidação orçamental mais forte evolui a par com um valor mais baixo do crescimento do que era esperado.
Uma explicação natural é que os multiplicadores orçamentais são significativamente mais elevados do que as previsões implicitamente estimavam.
Em muitos documentos, muitos deles publicados pelo FMI, sugerem que os multiplicadores orçamentais utilizados nas estimativas estarão situados em torno de 0,5. Os nossos resultados indicam que estes multiplicadores, na verdade, estão situados no intervalo entre 0,9 e 1,7.”
Seria de esperar uma inversão de políticas, mas nada disso aconteceu. E compreende-se, Olivier Blanchard dá ele próprio a justificação para que assim possa ser, para que nada seja necessário mudar, a lembrar bem Lampedusa e o seu Leopardo, a lembrar Visconti e o seu Burt Lancaster, quando Blanchard afirma em forma de conclusão:
“Finally, it is worth emphasizing that deciding on the appropriate stance of fiscal policy requires much more than an assessment regarding the size of short-term fiscal multipliers.
Thus, our results should not be construed as arguing for any specific fiscal policy stance in any specific country. In particular, the results do not imply that fiscal consolidation is undesirable. Virtually all advanced economies face the challenge of fiscal adjustment in response to elevated government debt levels and future pressures on public finances from demographic change. The short-term effects of fiscal policy on economic activity are only one of the many factors that need to be considered in determining the appropriate pace of fiscal consolidation for any single country”.
Contra esta mistificação, a de que as políticas de austeridade nos levarão a bom porto, aqui está um texto espantoso de Nuti, um texto de alta qualidade, de que certamente ninguém poderá acusar de estar carregado de ideologia. Trata-se de um texto em que se faz uma análise científica rigorosa sobre os fundamentos das políticas impostas aos países europeus em dificuldade e que é simultaneamente um apelo à tomada de consciência, dos eleitores e sobretudo dos eleitos, face à devastação organizada já à escala europeia.
Com efeito, com este texto fica-se a compreender as manobras dos teóricos da União Europeia e do BCE com os seus modelos cheios de hipóteses irrealistas (segundo a OFCE e outros organismos independentes como os institutos económicos ECLM na Dinamarca e IMK na Alemanha) a imporem um valor baixo para o multiplicador orçamental m. Os novos Leopardos, que um outro Visconti bem poderia filmar . Com efeito com os rácios da Dívida Pública/PIB conhecidos, apenas poderiam afirmar que a política de consolidação orçamental desceria este rácio se o multiplicador orçamental a multiplicar pelo rácio da dívida existente for baixo! Criem-se então multiplicadores baixos para justificar a pretensa eficácia das políticas de austeridade! E foi o que foi feito.
Nuti diz-nos:
“(…) a consolidação orçamental tem de ser absolutamente evitada enquanto o rácio PIB/Dívida Pública for menor do que o multiplicador orçamental — até mesmo na hipótese de o país registar uma taxa de crescimento menor do que a taxa de juro da dívida pública, pois com a consolidação orçamental perversa o país continua a aumentar o seu rácio Dívida Pública/PIB e ainda mais rapidamente do que com um estímulo orçamental continuado”.
Vejamos a validade desta afirmação utilizando uma análise formal mais clássica, utilizando as expressões mais habituais dos manuais de economia. A evolução do rácio Dívida Pública/PIB (Δ(D/Y)), ou seja, a situação financeira líquida do Estado (SFE), pode ser dada, em boa aproximação, por SFL = Defpr+d(i – g), onde Defpr é o défice público primário, do rácio D/Y, i a taxa de financiamento médio da Dívida Pública e g a taxa de crescimento. Com a taxa de juro a ser superior à taxa de crescimento da economia, o impacto do serviço da dívida sobre o rácio Dívida Pública/PIB, mais conhecido por efeito bola de neve ou snow-ball, expresso por d(i – g) vem então positivo e a situação financeira liquida do Estado com tudo o resto contante tenderia a degradar-se ainda mais. Esta é a situação que à primeira vista mais justifica então a necessidade de prosseguir políticas de austeridade. Neste caso, o serviço da dívida está a aumentar e a fazer aumentar o ratio da dívida mas, com tudo o resto constante, a introdução das políticas de austeridade fazendo baixar g degradaria ainda mais a situação, continuando a degradar-se a situação que com essas políticas se queria remediar, pois aumenta a força que aumenta o referido ratio. Mário Draghi, homem tão brilhante intelectualmente como de cínico politicamente, terá consciência de que a consolidação pode ser perversa, igualmente. E que nos propõe ele? Propõe-nos uma baixa do valor de d, uma baixa imediata do valor do rácio da dívida relativamente ao PIB, que viria neutralizar ou mesmo ultrapassar o efeito negativo das políticas de austeridade sobre o crescimento e deste sobre o rácio da dívida, e que assim se continue com as políticas de austeridade. Politicamente, esta posição significa colocar o país à venda. É o que se pode entender da sua afirmação de que em Portugal ainda há muito a privatizar, e é de resto o que se está a fazer!
(continua)
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Para ler a Primeira Parte desta carta do argonauta Júlio Marques Mota, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/wp-admin/post.php?post=2029850&action=edit

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