Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
11 Setembro de 2013
Parte I
Os comentadores admitem frequentemente que o comércio de bens e serviços e a livre circulação de capitais têm-se estado a praticar num quadro relativamente sem restrições e tudo isto é ainda hoje uma realidade, um dado, mas a dinâmica a caminho de uma maior abertura económica poderá agora estar sofrer uma inversão da marcha que até agora tem sido seguida, com profundas implicações para a economia global. Esta peça, a primeira de uma série de duas partes, olha para os motores desta mudança de orientação.
A globalização atingiu o seu pico na parte final do século XX e neste inicio do século XXI. Este aumento do comércio internacional e da livre circulação de capitais facilitaram um período de crescimento e de prosperidade sem precedentes.
Mas como o observou um estadista inglês, Lord Palmerston: “as Nações não têm amigos permanentes ou aliados, elas só têm interesses permanentes.” No rescaldo da crise financeira global, estes interesses ditam uma inversão da tendência para uma maior integração global e assim favorece-se um certo retorno à autarquia.
O mundo “Juche” , o mundo à Kim-il-Sung
Em economia, a ideia de autarcia refere-se a uma economia relativamente fechada ao comércio internacional ou em que os fluxos de capital são bastante condicionados.
O Império Austro-Húngaro, o Japão durante o período Edo, a Alemanha nazi e a Itália sob Benito Mussolini todos estes governos praticaram políticas nacionalistas, favorecendo a situação de autarcia. Mais recentemente, países tão variados como a União Soviética, o Afeganistão (sob o regime Taliban), o Camboja (sob os Khmers Vermelhos) e Mianmar, até bastante recentemente, funcionaram todos eles como economias fechadas. Hoje, o mundo implicitamente está a aderir à ideia Juche ou seja está a querer abraçar a ideologia do estado da Coreia do Norte, centrada na autarcia.
As pressões económicas e financeiras sem precedentes estão por trás desta mudança a caminho de economias mais fechadas. Esta guerra económica pode remodelar a ordem mundial através de formas inesperadas.
A desintegração dos muros
No período pós-Segunda Guerra Mundial assistiu-se a uma notável expansão no comércio mundial e nos fluxos de capital. A queda do muro de Berlim e a re-integração da China, Rússia e Leste Europeu na economia mundial terá aumentado os anseios para a globalização.
A produção e o consumo foram desagregados, em expansão ao longo do tempo na sequência de uma maior divisão da indústria transformadora interna. Como cada etapa da produção foi realizada em termos de acrescer a eficiência, as empresas e as nações aderiram rapidamente a um sistema transnacional de produção.
A desregulamentação permitiu a globalização do capital. As poupanças feitas num lado do mundo procuram oportunidades de investimento atraentes e rentáveis no outro lado do mundo. Investimento e instrumentos de gestão de risco facilitaram esta diáspora monetária.
A globalização foi e é um produto dos seus tempos. No quadro de ciclo virtuoso, esta cria e baseia-se igualmente num forte crescimento económico. As nações individualmente sacrificaram o interesse nacional dados os benefícios da melhoria dos custos ponderados da integração económica.
A prosperidade desencorajou a análise sobre os elementos de dinamização económica e sobre os pressupostos que estavam subjacentes ao caminho seguido e no sentido da integração global, ignorando-se assim as suas fragilidades essenciais.
Menos ganho, mais dor
O esclarecido interesse próprio tem sustentado o sistema, enquanto que possibilita prosperidade para a maioria das Nações. Para muitas nações, na sequência da crise financeira global, as vantagens da integração económica e monetárias são agora são menos óbvias. Uma combinação de fatores económicos, políticos e sociais que se auto-reforçam está agora a gerar uma mudança nas economias conduzindo-as para as situações de economias fechadas.
O crescimento económico global diminuiu e é provável que seja morno durante um período de tempo prolongado. Para muitas nações, o reduzido benefício direto do comércio global e da liberdade de movimento dos capitais dita agora uma defesa de situações mais próximas de economia fechada do que outra coisa . E com isto, fechando as suas economias face ao exterior e centrando-se no mercado interno, as nações acreditam que podem capturar uma parcela maior de crescimento disponível e proporcionar maior prosperidade para os seus cidadãos.
A distribuição de previsão de crescimento futuro também influencia esta mudança. Menos afetados pela crise, as nações emergentes, os benefícios da participação no sistema económico mundial, que anteriormente permitia melhorias nos seus padrões de vida, estão agora a diminuírem. Menos afetados pela crise, eles estão receosos de ter que pagar para resolver os problemas de muitos países desenvolvidos.
A crise também colocou em destaque a composição do rendimento e da riqueza que está subjacente à actual globalização.
Na indústria transformadora, os lucros da cadeia de valor exigem um essencial controle da propriedade intelectual mais do que da própria produção. A maioria dos lucros dos iPhones da Apple, feitos e registados como sendo parte das exportações da China, vêm das componentes de alta tecnologia, da propriedade intelectual e da marca que são capturados por empresas não-chinesas.
As nações desenvolvidas e as empresas controlam a logística vital e as cadeias vitais de comércio internacional. Elas dominam as atividades financeiras internacionais, gerando ganhos substanciais com o seu financiamento ao comércio e à gestão de investimentos.
Enquanto as taxas de crescimento foram elevadas, a distribuição desequilibrada dos benefícios da globalização foi tolerada, embora a contragosto. Mas com as taxas de crescimento mais baixas e com a diminuição de benefícios as nações podem ser levadas a procurar maximizar a sua própria posição em detrimento dos outros, reduzindo o grau de envolvimento no sistema económico global.

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