POESIA AO AMANHECER – 299 – por Manuel Simões

 

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RUI CÓIAS

( 1966 )

EM QUALQUER MOMENTO…”

Em qualquer momento, no começo e no fim,

mesmo na medida de toda a vida – falhos de toda a pena,

permanecemos sem amanhã nem princípio,

esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,

apenas acumulando areia para o fundo de um recreio

a simular um amuleto contra o regresso impossível.

Não temos trégua – não podemos voltar – e afastamo-nos – sem

ruído – lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito

– figuras resumidas a uma branca poeira informe,

em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.

Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,

demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,

resina que nela se abate à frente dos olhos, que

esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste

e nos recusa a menor separação do abandono –

que por nada existimos – e só acenamos – acenamos –

senão para crer no que julgamos não ter acontecido,

senão a entender a justa aceitação da nossa vida.

(de “A Ordem do Mundo”)

Jurista e poeta. Antologiado na “Poetry International Web”. Publicou, entre outros, os livros de poesia “A Função do Geógrafo” (2000) e “A Ordem do Mundo” (2005).

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