EDITORIAL – A DEMOCRACIA DE AUTOCLISMO

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A expressão que serve de título a este editorial pode parecer a alguns leitores mais convencionais como pouco respeitadora. Não o é. Pensando um pouco no que se passa com a maioria das pessoas, cuja intervenção na política se limita a, de tantos em tantos anos, ir meter um papelinho dobrado numa fenda existente na parte superior de uma caixa metálica, não se consegue evitar a ideia de que interpretam o sistema político como requerendo que, durante anos, as cidadãs e os cidadãos, maiores de dezoito anos, vão formando e acumulando ideias e tensões, para um belo dia, de chuva ou de sol, se dirijam, um pouco como quem vai à missa, descarregar na urna o produto dessas ideias e tensões. Perdoarão a analogia os mais timoratos e os mais convencionais, mas as coisas passam-se desta maneira. Não admira que muitos, mesmo sem qualquer intenção de alterar o sistema, mesmo tencionando continuar a participar regularmente, se sintam frustrados com ele.

Os resultados das eleições do domingo passado, independentemente de considerações sobre se foram melhores ou piores, fornecem muitos dados para a reflexão sobre este assunto. Um dos aspectos mais relevantes é o da taxa de abstenção, claro. Segundo os dados provisórios ontem disponíveis na LUSA, terá aumentado de 41 para 47%. Aqui deverá ter-se em conta o estado dos cadernos eleitorais, que carecem de urgente actualização. Contudo, é óbvio que muita gente ficou em casa, ou foi passear, com chuva ou sem ela. Tê-lo-ão feito por inércia ou por rejeição do sistema político? Muitos terão feito esta opção, oscilando entre os dois motivos. Dir-se-á que, para a maioria dos abstencionistas, funcionou uma espécie de falta de opção ou de estímulo. Não será que a abstenção é estimulada? Há quem o afirme, e é sem dúvida um ponto importante, mesmo para os que acham insuficiente o sistema reinante de democracia representativa.

Muito claro foi o crescimento do número de votos em branco e dos votos nulos. Os dois somados, sempre segundo os resultados provisórios fornecidos ontem pela LUSA, no que respeita às câmaras municipais, excederam 7% do número total de eleitores inscritos. Em 2009, somaram 3, 27%. Parece indiscutível que se trata de um fortíssimo aumento. Não é exagero concluir que na maioria dos casos predominou o desejo de deixar ficar expresso nas urnas não haver identificação com as forças políticas concorrentes. O aumento de votação na rubrica Grupo de Cidadãos, que foi de 226111 (2009 – 4,09%) para 344556 (2013 – 6,9%), correspondendo a um aumento de 67 para 113 mandatos de vereadores, também tem com certeza interesse suficiente para a classe dos analistas políticas se debruçar sobre ele.

Outra análise a fazer será a dos valores absolutos das votações nos vários partidos, a começar pelos partidos maiores. Referiremos apenas que, ainda segundo os dados provisórios apresentados ontem pela LUSA, o partido com mais votação em 2013, em valores absolutos, teve menos votos do que em 2009.

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