por Rui Oliveira
Não são muitos, nesta Quarta-feira, 2 de Outubro, os motivos novos de interesse cultural na cidade capital do “Reino”.
Só a Antena 2 realiza no Auditório Caixa Geral de Depósitos do Instituto Superior de Economia e Gestão (a São Bento) mais um Concerto Antena 2 (de transmissão directa e acesso livre), às 19h, intitulado “Viagens na Minha Terra” e dado pela jovem pianista Joana Gama.
Actualmente doutoranda em Música contemporânea portuguesa na Universidade de Évora, esta pianista formada na Royal Academy of Music de Londres e na Escola Superior de Música de Lisboa e com vários Prémios Jovens Músicos tem, nos últimos anos, estado envolvida em diversos projectos que associam a música às áreas da dança, da fotografia, do teatro e do cinema colaborando com a coreógrafa Tânia Carvalho, o fotógrafo Eduardo Brito, a companhia Esticalimógama ou o realizador João Botelho. Irá, no final de 2013, estrear uma nova peça com a companhia “Útero” no Teatro São Luiz em Lisboa.
Aqui, segundo as Notas ao Programa, o passeio poético-etnográfico por Portugal inspirado em Almeida Garrett vai por em confronto obras, abordagens e estilos de composição consideravelmente díspares de dois compositores com quase 50 anos de diferença, embora tendo em comum o seu «especial interesse … em “retratar” de forma pessoal o nosso país».
Dum lado Amílcar Vasques-Dias (foto à esq.), natural de Badim (Monção) e actualmente a viver no Alentejo, «transporta para a música as impressões, memórias e influências da sua infância minhota e da vida no campo alentejano. Em termos musicais, … explora continuamente os registos extremos do piano e, de forma a unificar este ciclo, o aparecimento recorrente de fragmentos nas diferentes peças».
Do outro, Fernando Lopes-Graça (foto à dir.), em cada um dos andamento do ciclo “Viagens na Minha Terra”, composto em 1953 e 1954, faz … «uma espécie de compilação das viagens de cariz etnográfico que levou a cabo pelo país, muitas vezes na companhia do etnomusicólogo corso Michel Giacometti, levando-nos a ambientes bem contrastantes desde a solenidade da “Procissão de Penitência em São Gens de Calvos” ao ambiente dançante de “Em Alcobaça dançando um velho Fandango” − obra pautada por uma imensa frontalidade, por vezes quase rude, no discurso musical».
Do programa constam assim de :
Amílcar Vasques-Dias (n. 1945) – “Lume de chão” (Tecido de Memórias e Afectos), compreendendo
1 Acender ; 2 Eira do Outeiro; 3 Azinheira de silêncio; 4 Espadelar (Linho); 5 Assedar (Linho); 6 Fiar (Linho); 7 Linho; 8 Tear-Tecer; 9 Ao lume (Conto); 10 Acácia de ninhos; 11 Alçapão; 12 Cerejas-Pão
Fernando Lopes-Graça (1906 – 1994) – “Viagens na minha terra” (Dezanove Peças para piano sobre melodias tradicionais portuguesas), englobando
1 Procissão de Penitência em S. Gens de Calvos; 2 Na Romaria do Senhor da Serra de Semide; 3 Noutros tempos a Figueira da Foz dançava o Lundum; 4 Um Natal no Ribatejo; 5 Em Alcobaça, dançando um velho Fandango; 6 Em Ourique do Alentejo, durante o S. João; 7 Acampando no Marão; 8 Em São Miguel d’Acha, durante as Trovoadas, mulheres e homens cantam o Bendito; 9 Em terras do Douro; 10 Nas faldas da Serra da Estrela; 11 Em Silves já não há moiras encantadas; 12 Cantando os Reis em Rezende; 13 Em Pegarinhos, uma velhinha canta uma antiga canção de roca; 14 Na Citânia de Briteiros; 15 Em Monsanto da Beira, apanhando a margaça; 16 Na Ria de Aveiro; 17 Em Setúbal, comendo a bela laranja; 18 Em Vinhais, escutando um velho Romance; 19 Os adufes troam na romaria da Senhora da Póvoa de Val-de-Lobo
Não havendo registo acessível (salvo o site da Antena 2 aqui de concerto semelhante em Outubro passado), só podemos dar ideia das capacidades de Joana Gama através deste vídeo da interpretação da peça Étude d’Ut – Absence d’une Mémoire Présent for Piano solo (2003) no São Luiz TM em Maio :
O único outro evento melódico do dia (Quarta-feira) é o Momento Musical interpretado pelo agrupamento Saxacordeon e integrado na entrega do Prémio de Jornalismo “Direitos Humanos e Integração” que terá lugar na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, às 18h, com entrada livre. 
[A cerimónia é promovida nesta data pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social e pela Comissão Nacional da UNESCO dado 2 de Outubro ser o “Dia Internacional da Não-Violência”]
O agrupamento “Saxacordeon”, criado em 2009 e único em Portugal associando estes dois instrumentos, é constituído por Nuno Miguel Silva, saxofone (e autor da maioria dos arranjos) e Nelson Almeida, acordeão.
O seu programa compreende :
Vitorio Monti Czardas
Pedro Iturralde Suite Hellenique
Infelizmente num registo fílmico deficiente (embora melhor no aspecto sonoro), mostramos-lhe esta última peça de Pedro Iturralde pelo “Saxacordeon” ainda em 2009 :
Passando já para Quinta-feira, 3 de Outubro, os eventos dominantes no campo da música são ambos no campo do jazz com grupos, contudo, de experiência diferente.
No Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), às 21h, toca o polaco Marcin Wasilewski Trio num espectáculo de 1h15m que designam de “Faithful”, o título do seu terceiro e último álbum de Março de 2011.
Compõem-no Marcin Wasilewski piano, Slawomir Kurkiewicz contrabaixo e Michal Miskiewicz bateria .
Deles diz o Jazz Times (segundo o CCB) : «Marcin Wasilewski não pensa como outros pianistas de jazz. O seu suporte improvisacional, o seu sentido do espaço musical e a sua imagética sonora são tão frescos que, sendo de início misteriosos, o ficam ainda mais depois. O mesmo pode dizer-se do seu trio […] É preciso ousadia para um jovem trio criar música de tal quietude, tal paciência. O facto de os três músicos terem tocado juntos desde a adolescência é audível no modo como acreditam nas epifanias a que colectivamente chegam».
Nada mais me resta senão mostrar-vos o vídeo promocional do lançamento em Varsóvia do CD “Faithful” (necessariamente curto), mas em seguida proporcionar-vos mais de 1 hora onde a sua obra é percorrida em Jazz Sous les Pommiers :
No plano nacional, vem ao Hot Club de Portugal nesta Quinta-feira, 3 de Outubro (e também Sexta, 4), às 22h30, para um concerto de entrada gratuita para sócios, o conjunto TriSoNTe,
um trio co-liderado por Gonçalo Prazeres (saxofone alto, barítono e electrónica), Ricardo Barriga (guitarra) e Luís Candeias (bateria).
O repertório deTRiSoNTe (diz o Hot) é composto pelos seus elementos e desenvolvido colectivamente, pensando nas várias texturas e sonoridades possíveis desta instrumentação sem baixista e sem barreiras estilísticas.
Em Outubro de 2013 vão editar o seu primeiro trabalho discográfico “Monster’s Lullabye” (Sintoma Records), cujo trailer pode ser ouvido aqui .
Um registo mais longo é este obtido em Dezembro de 2011 no “Vinyl Bar”:
No campo do cinema e do teatro, duas notas de alerta.
Estreia nesta Quinta-feira, 3 de Outubro o filme “Hannah Arendt” (Alemanha, 2012) de Margarethe von Trotter tendo como intérpretes principais Barbara Sukowa, Axel Milberg e Janet McTeer (no cinema Monumental).
Após assistir ao julgamento do nazi Adolf Eichmann, a filósofa política Hannah Arendt atreve-se a escrever sobre o Holocausto em termos inauditos. O seu trabalho provoca imediatamente escândalo mas Arendt mantém-se firme ao ser atacada tanto por inimigos, quanto por amigos.
“Hannah Arendt” é um retrato do génio que abalou o mundo com a sua tese sobre a “banalidade do mal” (diz o Goethe Institut, que o promove). E críticos corroboram : «Todo o filme sobre Hannah Arendt medita sobre a razão e a forma como o mal absoluto foi cometido no mundo dos seres humanos.(…) O filme de Margarethe von Trotta é notável. Todo o talento cru da realizadora de “A Honra perdida de Katharina Blum” (1975) está presente nesta obra, mas com um apuramento formal e uma forma cinematográfica superior» (Nuno Ramos de Almeida).
É este o filme-anúncio :
Entretanto, na Sala Estúdio do Teatro da Trindade, vai terminar (!) a sua apresentação em palco este Sábado 5 de
Outubro, às 21h45, a peça “Até Amanhã !”, um texto de A. Branco objecto inclusive de diversos prémios (Distinção João Osório de Castro, do Fórum Teatral Ibérico em 2008 e Menção Honrosa INATEL/Teatro – Novos Textos em 2005).
Encenada por Eduardo Condorcet com música original de Pedro Pereira, interpretam-na Rogério Jacques e Isabel Simões Marques.
Sinopse :
Um prisioneiro em recuperação por tentativa de suicídio passa a ter consultas diárias com uma psicóloga. No decurso destas a relação inicial de desconfiança passa por fases de resistência, de crispação, de conflito aberto, de aproximação, de necessidade, de dependência e finalmente falhanço nas tentativas que ambos vão fazendo de se entenderem um ao outro.
Opinam críticos (segundo o T.Trindade) : «Este é um drama intimo, linear, pleno de ansiedades e desejos contemporâneos e próximos do espectador ou leitor. Destacam-se a honestidade e humanismo da trama … Apesar desta proximidade, o tom não é somente coloquial, vai directo às tensões, complexificando-as. Entre outras coisas avisa-nos da fragilidade do sentido de confiança no outro. Mas faz mais do que isso, torna-a uma personagem central e não apenas uma personagem funcional ao serviço da apresentação e desenvolvimento do drama do prisioneiro. Apresenta diálogos que poderiam, sim, fazer parte do quotidiano, mas que pela sua tensão e complexidade nos fazem deslocar do mesmo. Um teatro de proximidade mas também um teatro de reposicionamento».
É este o conteúdo destes dois dias, caro leitor.




