POESIA AO AMANHECER – 300 – por Manuel Simões

 

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PEDRO MEXIA

( 1972 )

ALEXANDRIA

Lisboa não é Alexandria mas

Alexandria não passa de uma metrópole

em versos subida e sublimada, a sua geometria,

as incisões do pequeno desespero.

Dêem-me uma cidade, que esta minha

está cansada e não quero outra,

escadarias em que se desce sempre,

velhas varandas apalaçadas,

dêem-me uma Alexandria do pensamento,

com uma antiguidade a dourar cada hora,

cada entardecer, mas uma antiguidade

falsa, hiperbólica,

subtil de tão imaginada, unreal city,

Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios

que conheci, outros ocultos,

percursos que adivinho no avanço

das multidões, dias de festa,

lambris de janelas, amuradas.

Não quero este rio, nem o outro,

heraclitiano, que me oferecem

umas breves obras completas na estante.

Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade

ou idioma, uma cidade para que eu possa

inaugurar o passado das ruas

e, sem outro propósito, respirar.

(de “Eliot e Outras Observações”)

Crítico literário e poeta. Da sua obra poética: “Duplo Império” (1999), “Em Memória” (2000), “Avalanche” (2001), “Eliot e Outras Observações” (2003).

 

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