“IMAGENS PARA O FUTURO” – PARA QUE A CIVILIZAÇÃO PROSSIGA É A CRIANÇA QUE TEM QUE ESTAR NO CENTRO por clara castilho

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Mais um evento assinalando o centenário do nascimento de João dos Santos, desta vez organizado pelo Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia e que ocorreu dia 26 de Setembro na Fundação Gulbenkian, com transmissão directa via internet.

Na 1ª conferência, Pedro Strecht, partindo de um poema de Daniel Faria e do texto de João dos Santos “Urbanismo e Saúde Mental”, apresentou um novo conceito, o de criança sem sombra – fazendo pontes com desenhos e histórias de meninos da Casa da Praia e a história de Peter Pan, menino sem mãe que parte para a Terra do Nunca.

Armando Leandro realçou que João dos Santos tinha uma “ luminosa perspectiva fundante de uma nova visão da criança, na procura de uma aliança entre sensibilidade e conhecimentos científicos”.

IMAGENS PARA O FUTURO

Na 1ª Mesa Redonda, Daniel Sampaio lançou o desafio de discutirmos o legado de João dos Santos e pensarmos o que ele faria agora, 2013, com as mudanças que se verificaram nas famílias e na sociedade e que colocam aos técnicos novas questões. Indo neste sentido, Ana Maria Vieira de Almeida frisou que João dos Santos ousou fazer perguntas novas para novos problemas e que nós, agora, temos que ousar fazer perguntas novas para os novos desafios. Maria do Carmo Sousa Lima, enquanto psicanalista, falou-nos de algumas das posturas do Mestre neste aspecto, realçando que para ele o pensamento tem origem no sonho e lembrou uma passagem em que ele defende que foi através da palavra que os homens afugentaram os deuses …Teresa Goldschmidt tentou fazer uma síntese, ressaltando que as neurociências, a epigenética, as evidências imagiológicas só têm vindo a confirmar o que já se sabia e que a criança é aquilo que  lhe é reflectido pelos outros – pais e escola.

Na 2ª conferência, Maria Eugénia Branco, estudiosa da Obra de João dos Santos, deixou-nos com muito em que pensar, tantas as ligações, inter-relações, interpretações que fez sobre os seus textos… Deixemos apenas algumas: o trabalho pioneiro  em todo o mundo que ele desenvolveu em 1952, no Centro Sofia Abecassis, reforçando a importância da relação mãe-filho e a necessidade de prevenção precocíssima em saúde mental infantil; a intencionalidade pedagógica que sempre esteve no centro da sua actuação; o colocar a saúde no centro da intervenção e não a doença e a loucura.

Na 2ª mesa redonda, António Sampaio da Nóvoa voltou a defender o conceito de “educação de todos e por todos”, ironizando à volta dos professores que gostam de alunos “angelicais” e detestam os alunos “demónios” e frisando a ideia de João dos Santos de que não há crianças “irrecuperáveis”. Emílio Salgueiro levou-nos até ao Jardim das Amoreiras onde está a estátua do Mestre, relatando-nos um caso clínico de uma criança com “irrequietude motora”, fazendo a ponte para a parte da Obra de João dos Santos em que ele tanto realça a importância do “corpo” e da actividade motora. Carlos Neto falou sobre a actual sociedade em que se está intelectualmente activo e corporalmente inactivo e se dá às crianças “coisas” feitas, fugindo a lhes colocar os problemas para que os resolvam. Pedro Morato sintetizou defendendo que não “temos” corpo, “somos” corpo.

Da apresentação do livro “Memórias para o futuro” falarei noutra ocasião.

De volta a casa, esgotada mas satisfeita, preparei-me para o dia seguinte, de trabalho “no terreno”, onde as crianças não esperam e precisam de nós. A melhor forma de homenagear João dos Santos.

 

 

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