Um tarde do «Verão Quente» de 1975 dei comigo na Avenida da Liberdade, no meio de uma multidão enfurecida que gritava o nome de um político antecedido da palavra «abaixo». Lembrei-me de quando, anos antes, eu e o dono do nome, ambos recém-casados, mostrávamos orgulhosamente num café, salvo erro na Riviera (da Caparica) retratos dos respectivos primeiros rebentos. uma filha, no meu caso. O nome que milhares de pessoas gritavam era o de um amigo que deixara de existir. Frequentamos ambos a esplanada do Paulo China, em Vilamoura. Acenamos. Um polegar para cima. Ambos sabemos que não há espaço para conversas, vivemos em mundos não miscíveis. O Paulo China é a único ponto onde os nossos dois mundos se tocam.
Quem tenha visto com atenção O Mundo a Seus Pés, título português, prosaico e redutor, de Citizen Kane percebe tudo o que se passa no mundo da política: as lutas pelo poder, o vício de ser poderoso, as desonestidades, a corrupção,. Está tudo ali. Poupa-se o dinheiro das propinas de um curso em ciências políticas. E o tempo. Um MBA em duas horas.
Citizen Kane, realizado e interpretado por Orson Welles, conta a história de um homem cuja grande paixão é o jornalismo. Um rapaz pobre transforma-se num dos mais poderosos milionários do mundo. Vence no jornalismo, na política, torna-se imensamente rico e poderoso. Tudo o que o dinheiro e o poder podem comprar ele possui. Porém não é capaz de conservar o amor nem a amizade daqueles que sempre o apoiaram e envelhece mergulhado numa pungente solidão. «Rosebud», a nostalgia da pureza juvenil que esse velho corrompido pelo poder evoca ao morrer.
Quem envereda pelos caminhos da ambição, entra num labirinto sem saída. É uma escolha que muitos fazem. Com a minha idade já vi jovens com valor e inteligência, trocarem uma vida simples, de estudo, de investigação e pesquisa ou de criatividade, pelas voltas tortuosas da política. Lembro-me de alguns desses amigos que «singraram» no mundo da política, quando jovens muitas das suas inquietações e convicções eram coincidentes com as minhas. Vejo-os agora, seguros, sem dúvidas, dando entrevistas na televisão. Defendendo ou atacando governos, mas sempre na perspectiva, quanto a eles dinâmica, de dar mais um passo na carreira. Amigos, não, ex-amigos, não porque nos tenhamos zangado, mas porque vivemos em mundos diferentes, paralelos, mas não miscíveis.