Nos capítulos anteriores – Estamos em Abril de 2009. A conselho do seu cardiologista, António Amaral está de férias no Porto Santo. Ao fazer o seu jogging matinal pela praia, encontra o corpo de um homem morto a tiro. Recuamosm até 1972. No distrito de Tete, Moçambique, tem lugar uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto António recorda os dias anteriores ao mórbido achado, as tropas especiais desencadeiam um ataque a Xuvalu, o alvo da operação. No hotel, ao jantar, António e Cecília, sua mulher, são cumprimentados pelo pianista, que se lhes dirige. Em Xuvalu o massacre da população está em curso.
Oitavo capítulo
Colunas de fumo erguiam-se do mato.
Os aviões, destruindo as aldeias vizinhas e queimando o mato em redor de Xuwalu, numa preparação da operação Shelltox, haviam lançado a confusão geral. Mulheres e crianças fugiam espavoridas sem adivinharem o que as esperava. O capitão mandou o seus homens agrupar os aldeãos.
O padre Manuel tentou argumentar, parlamentar. Câncio mandou amarrá-lo e amordaçá-lo. Manuel, no chão da palhota onde fora instalado o comando, passou as horas seguintes ouvindo os gritos, os tiros, os resfolegar animalesco dos soldados violando as mulheres e algumas meninas púberes. Foi uma descida aos infernos. Devem ter-se esquecido dele, pois ficou ali abandonado, amarrado como um saco de batatas. Manuel era um jovem sacerdote espanhol da ordem de São Domingos. Vivia na aldeia, zelando pela educação religiosa das crianças, oficiando a missa diária e ajudando os camponeses de Xuwalu em tudo o que podia. Aprendera um pouco de português, embora o falasse com um indisfarçável acento e preferisse utilizar a sua língua.
Noutra palhota, os agentes da DGS, chefiados por Câncio, deram início aos interrogatórios, mandando que em redor do aldeamento fosse montada segurança. No flanco esquerdo e direito da aldeia foram postados homens para prevenir qualquer ataque de surpresa por parte do inimigo. De Francisco Kachawa não existia qualquer vestígio, os aldeãos diziam não saber quem era. Câncio começou a ficar raivoso.
Antóni teve a infelicidade a estar entre os primeiros que foi interrogado. Respondeu que não sabia nada sobre a Frelimo. O agente Nachawi da DGS, um negro grande e colérico, deu-lhe pauladas até lhe esmagar o crânio. Depois, perante as gargalhadas dos soldados, pisou repetidamente o cadáver. O sangue espirrava em todas as direcções. O alferes Norberto de Sousa, um rapaz da cidade, quase desmaiou, sendo alvo da galhofa dos colegas. Nachawi tomara o freio nos dentes depois de ter morto Antóni, disparou o primeiro tiro «Mata a gazela», disse acicatando os soldados. Os aldeãos tentaram fugir.
Começou o tiro ao alvo.
As mulheres foram poupadas a princípio. Depois conseguiram agrupá-las e à vez eram violadas em frente dos que ainda estavam vivos. Depois davam-lhes um tiro na cabeça
– Vais de papinho cheio – Diziam os «heróis» subindo o fecho éclair das braguilhas, depois de terem dado ao gatilho.
Alguns, mais pudicos, arrastavam as mulheres para o meio dos arbustos. Foi assim que Maria se salvou. Rapariga bonita, vira o marido ser abatido à paulada pelo agente Nachawi, depois cinco homens levara-na para o mato. Foram servindo-se à vez. O penúltimo, um sargento alto e gordo e com grandes patilhas, disse para o quinto:
– Fode-a e depois dá-lhe o tratamento.
Mas o rapaz, um furriel, não obedeceu. Fez menção de lhe levantar a capulana, mas arrancou-lhe as missangas que ela trazia à cintura e colocou-as ao pescoço. Olhou o rosto torturado da rapariga. Encostou-lhe a pistola à cabeça. Maria fechou os olhos e despediu-se da vida sem pena. O jovem deu um tiro para o ar e fez-lhe sinal para que fugisse. Maria esgueirou-se por entre os arbustos. O furriel apareceu junto dos outros a compor as calças:
– Puta da preta fugiu – apanhou-me a subir as calças; ainda disparei, devo ter-lhe acertado… – os outros fizeram surriada. O furriel acabou por se rir com os outros.
– Seu nabo do caraças, primeiro dava-lhe o tratamento e depois subia as calças. Mas já a apanham, deixa lá. Referia-se aos soldados que tinham guarnecido os flancos e que iam apanhando os fugitivos e aproveitavam para violar as mulheres.