A ESCRITA DAS MULHERES (SÉCULOS XVI A XVIII). UMA ANTOLOGIA IMPROVÁVEL – por Manuel Simões

Imagem1 (4)Com organização de Vanda Anastácio e integrada no projecto “Portuguese Women Writers – Escritoras Portuguesas (1500-1900)”, acaba de sair esta monumental antologia (Relógio d’Água, 2013), inesperada e por isso considerada “improvável”, que pretende preencher a lacuna de referências a figuras femininas nas “Histórias da Literatura Portuguesa”, das quais praticamente não se fala antes da contemporaneidade. E todavia, como aqui se demonstra, foi significativo o número de «mulheres com papel activo no campo literário português dos séculos XVI a XIX”, como a investigação levada a cabo a partir de 1990 acabou por demonstrar.

A exclusão deve-se a motivos de vária ordem, os quais se podem observar nos textos do capítulo I, “Mulheres e Cultura Escrita: discursos masculinos”, onde se encontram muitos exemplos que explicam o «silêncio das mulheres» através de discursos que consideravam a escrita e a leitura pouco adequadas ao género feminino, a não ser que se tratasse de rainhas, princesas ou damas ditas de linhagem. Francisco de Portugal (1585-1632), por exemplo, na “Arte de Galanteria”, defende que a dama da corte deve saber fazer «uma endecha e uma redondilha», mas sem ter «maior estudo». E o Padre António Vieira (1608-1697) refere lapidarmente que «infusões de letras não as costuma Deus comunicar a mulheres. A homens sim» (“Sermão XXII do Rosário”).

Mais conhecidas são as posições de Francisco Manuel de Melo (1608-1666) na “Carta de Guia de Casados”, para quem, tratando-se de mulheres, o «melhor livro é a almofada, e o bastidor». E mesmo o iluminista Luís António Verney (1713-1791), de algum modo reformador das mentalidades, embora reconheça capacidade aos dois géneros e advogue, portanto, a educação das mulheres, não deixa de limitar a amplitude dos estudos ao que lhes são próprios, em especial a economia familiar, até porque o autor concorda com M. Rolin, o qual defende «que este é o fim, para que a Providência as pôs neste mundo; para ajudarem os maridos, ou parentes, empregando-se nas coisas domésticas no mesmo tempo que eles se aplicam às de fora» (pp. 141-142). E foi já no século XIX que apareceu uma voz masculina (Francisco Joaquim Bingre, 1763-1856), o qual, num poema heróico, escreve claramente: «O génio feminil é susceptível / de grande científica cultura […] c’os mesmos dotes que possui o homem» (p. 158).

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Ilustração – Reprodução de quadro de Dorindo Carvalho

Uma parte consistente da Antologia (II,” Polémicas e querelas”) é dedicada à proliferação de textos veiculadores de polémicas e que encontraram meios de difusão nos populares folhetos de cordel. Uma das querelas mais interessantes

, que a antologia  reproduz, consiste na resposta de Paula da Graça, em 1715 (e trata-se de um pseudónimo), a um folheto atribuído a Baltasar Dias, que circulava já desde 1640 e reeditado em 1713 com o título “Malícia das Mulheres”. A autora, que se apresenta como “procuradora” do seu sexo, refutava, ponto por ponto, as posições de B. Dias, utilizando ainda o folheto de cordel, texto que serviria de modelo a outras intervenções da época, embora subscritas por anónimos, por iniciais hoje não descodificáveis, ou por expressões como “Amigo da Razão”, este último assinando um interessante “Tratado Sobre a Igualdade dos Sexos” (1790). Mas com razão afirma Vanda Anastácio: «ainda que seja possível identificar na produção escrita das mulheres dos séculos XV, XVI e XVII atitudes esporádicas de resistência ao discurso misógino dominante, o facto é que não conhecemos textos portugueses de autoria feminina […] anteriores ao século XVIII» (p. 166). Antes disso há alguns exemplos, aqui antologiados, mas são, em geral, dedicatórias, cartas, textos de carácter religioso ou místico, como se depreende do terceiro capítulo “Mulheres e CulturaImagem5 Escrita: Discursos Femininos”, onde se destaca a secção “Ficção narrativa”, com excertos de Sóror Maria do Céu (1658-1753), por exemplo; e sobretudo a parte relativa a “Poesia, Profana, Sacra, Política e de Circunstância”, sobressaindo os casos de Bernarda Ferreira de Lacerda (1595-1644), de Sóror Violante do Céu (1601-1693), de Teresa Josefa de Melo Breyner (1739-depois de 1793),  de Catarina Micaela de Lencastre (1749-1824), de Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna (1750-1839) ou de Leonor da Fonseca Pimentel (1752-1799). Sobre esta última, de que a antologia transcreve apenas um soneto, em italiano, endereçado à Marquesa de Alorna, sabe-se, porém, que a sua poesia tratou temas de carácter político, amoroso e até sexual, e que L. Pimentel defendeu os ideais da malograda república napolitana de 1799, sendo por isso enforcada na Praça do Mercado, em Nápoles, cidade onde viveu a maior parte dos seus anos. Conhecida como “A Portuguesa de Nápoles”, sobre ela escreveram grandes nomes como Benedetto Croce, Maria Antonietta Macciocchi (“Cara Eleonora”) ou Enzo Striano (“Il resto di niente”), um romance adaptado depois ao cinema tendo como protagonista Maria de Medeiros.

A antologia, como se depreende das suas 622 páginas, representa o importante produto de uma investigação em curso, com resultados mais do que evidentes quanto ao levantamento de um material que, pelo menos em parte, tem jazido em arquivos pouco frequentados. Trata-se, pois, de um trabalho notável, agora à disposição dos interessados para estudos futuros.

 

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