É frequente o recurso antonomástico a epítetos como «a língua de Cervantes» para designar o castelhano ou «língua de Camões» para referir o português. Se nos quisermos referir à variante galega do português, embora do ponto de vista puramente filológico, haja outros nomes a mencionar, o de Rosalía de Castro é o mais citado. O galego é «a língua de Rosalía de Castro». Após séculos de aculturação, de assimilação do galego ao castelhano, foi dela que partiu o impulso de relançar o galego como língua literária. Com Manuel Curros Enríquez, Eduardo Pondal e outros, fundou o movimento galeguista do Rexurdimento. Foi com ela que a cultura galega começou a reencontrar-se com a sua língua – a língua galega, a língua portuguesa, a língua galego-portuguesa.
Falar da língua portuguesa, implica falar do idioma que nasceu na província romana da Galécia e que a partir do latim vulgar se foi construindo. No século IX era já um idioma diferenciado das demais línguas novilatinas. No século XIII, além de ser falada em Portugal, era idioma de cultura na corte de Afonso X de Leão e Castela. Falar do português é falar do galego e dizer galego-português é redundante, pois estamos a falar, não de duas componentes da mesma língua, mas de dois segmentos temporais de um mesmo idioma. O português é indissociável da sua raiz galega; actualmente o galego prolonga-se e respira através do português.
Mas há 150 anos atrás, no berço da língua, na Galiza, o idioma estava desde o século XV relegado para a condição de dialecto rural. Neologismos castelhanos foram tomados de empréstimo e integrados, a fonética castelhana invadira a pureza do galego genuíno – o vernáculo foi-se perdendo. Pode dizer-se que a língua, na sua forma escrita, estava extinta. Aqui, intervém um factor chamado Rosalía de Castro e os seus Cantares, livro publicado em 1863. Os Cantares são o sinal mais luminoso do ressurgimento da cultura nacional. É considerado o primeiro livro escrito em galego moderno. Em muitos dos poemas, Rosalía fez a recolha de cantigas tradicionais, denunciando a miséria, a pobreza, a emigração forçada a que estavam submetidos os galegos para sobreviver naqueles anos do século XIX. Rosalía é, sem sombra de dúvida, a figura cimeira do movimento galeguista. Em Portugal, Antero de Quental e Teófilo Braga saudaram com entusiasmo a publicação desta obra.
Em 1880, saiu a colectânea Follas novas, que pode considerar-se, em parte, como uma sequência dos Cantares Galegos – alguns poemas têm evidente afinidade com a linha costumista da anterior. O restante reflecte um espírito poético de conteúdo profundo, político e metafísico, embora sempre ligado à melancólica nostalgia e às raízes telúricas que caracterizam toda a sua obra.
Para além de um prodigioso talento, a escritora revelava também uma cultura apurada e um conhecimento actualizado da evolução literária. Como diz Basílio Losada, «não é correcta a visão de Rosalía como aldeã inculta que só por um milagre de sensibilidade consegue encontrar algumas fórmulas expressivas renovadoras. Rosalía recebera a cultura média de uma rapariga da burguesia provinciana do seu tempo» Sem incorporar na sua bagagem intelectual os conhecimentos que lhe permitissem abordar de forma sistemática o problema da identidade nacional, a sua inteligência e a sua intuição souberam situar no idioma o coração da pátria galega.
A figuras insignes como a de Ricardo Carvalho Calero se deve o trabalho científico que permitiu reconstruir a identidade da língua galega, provando que ela está viva no português actual. Mas foi de Rosalía de Castro que partiu a iniciativa de reacender o orgulho pátrio nas chamas de uma língua que, há mais de um milénio, nasceu em terras da Galiza.


Meus Amigos
É bom recordar Rosalía de Castro. No passado dia 8 voltei à sua Casa-Museu em Padrón, depois de me ter maravilhado com a obra exposta de Castelão no Museu Provincial de Pontevedra (Sexto Edifício).
Não me fiquei por aqui. Não resisti a ir até Rianxo, onde fotografei a casa, ou melhor, o local onde o nosso autor nasceu, o edifício já é outro, assim como a casa onde viveu e, ali tão perto, a Casa-Museu de Ramón del Valle-Inclán, que Castelão tanto admirava, em Vilanova de Arousa, recordando a primeira vez que ali fui, tendo tido a oportunidade de falar com uma sobrinha-neta do escritor (julgo não me enganar, já lá vão cerca de 20 anos), e que estava contra a vontade do Governo da Galiza ali querer fazer a Casa-Museu, felizmente hoje uma realidade.
Terei oportunidade de escrever sobre tudo isto para o nosso blogue? Espero que sim.
Abraços do
António