A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 11– por Sérgio Madeira

Imagem1Nos capítulos anterioresEm Abril de 2009, por conselho do seu cardiologista, um amigo das «guerras» académicas,  António Amaral está de férias no Porto Santo.  Recuamos  até 1972. No distrito de Tete, Moçambique, tem lugar uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto António recorda os dias anteriores ao mórbido achado. Em Xuvalu, a aldeia-alvo da operação, as tropas especiais desencadeiam um ataque vioento e começam a massacrar toda a população, pois as ordens são paara não deixar ninguém vivo. No hotel, ao jantar, António e Cecília, sua mulher, são cumprimentados pelo pianista, que se lhes dirige. Em Xuvalu o massacre da população está em curso, um inferno de fogo e de sangue. Na praia, António analisa o corpo.

Tratava-se de um homem já entrado nos anos – bastante mais de 50 anos,  talvez quase 60, de altura mediana,  muito seco de carnes e semi-calvo. Cabelos brancos, muito provavelmente alourados na sua origem,  e ralos aureolavam a calva suja de areia.  Usava um bigode farto. Na testa tinha a pequena circunferência de um buraco de bala. No peito exibia outro pequeno orifício. «Munição de 6,35 ou de .22? Talvez 7,65», tentou António lembrar-se do que em tempos, durante a sua passagem pelo Exército, aprendera sobre a arte da guerra. «Baixo calibre, por certo», concluiu. Mas não era um perito. Fizera a tropa como soldado raso, apesar das suas habilitações. A informação política não permitira que o deixassem frequentar o curso de oficiais. Destinado a Penamacor, acabara por servir como amanuense na EPAM, a Escola Prática de Administração Militar, sendo os seus efectivos tratados, na gíria, como «os padeiros».

O sangue já secara junto em ambas as feridas, mas como a água da maré que ia enchendo,  já o ia molhando, o seu rosto estava também ensanguentado. O corpo estava encalhado entre as rochas,  não correndo o risco de ser levado pelo mar, pelo menos tão depressa. O homem estava vestido com asseio e simplicidade – umas calças de ganga e  uma camisa também azul e calçava sapatilhas de marca,  como as de António,  próprias para caminhar.

António não tocou em nada, limitando-se a observar. A cultura policial,  livresca,  cinematográfica e televisiva para alguma coisa devia servir – a cena do crime deve ser sempre preservada,  mantendo-a isenta de intromissões – é um palco onde apenas se devem exibir os principais actores ou os seus vestígios, quer os do assassino, quer os da vítima. «Elementar, meu caro Watson»… Lamentou não ter trazido o telemóvel, pois poderia ligar para o 112. Porém, o Nunes recomendara-lhe com alguma ênfase, em jeito de proibição, que dispensasse tal utensílio. Conhecendo os dois sócios de Amaral, o Nunes,  encontrando-os aos três a almoçar num restaurante de Miraflores,  pedira encarecidamente ao Soares e ao Moura que, durante as férias, só por razão muito forte e exceptuando a tal reunião com a empresa estrangeira de que António lhe falara,  comunicariam com ele. O que ambos logo prometeram fazer,  pois além de sócios,  eram bons amigos.

Com muito cuidado, sem mexer,  Amaral, observou o cadáver. No pulso, um relógio, um Rollex – de imitação? – continuava a marcar a hora certa – 9 e 42 a.m.. Não se danificara e, portanto, por ali não se poderiam tirar grandes conclusões.  Olhou para Norte, onde a cem ou duzentos metros corria a estrada alcatroada que percorria todo o litoral. Talvez encontrasse por ali alguém com telefone. Porém, isso era incerto, e estava já bastante próximo do fim da praia.  Resolveu, pois, acelerar o passo e ir até ao restaurante «Pôr do Sol»,  situado na praia, em plenas Ponta da Calheta onde estivera na véspera a tomar um café. Não era longe. Umas escassas centenas de metros. Antes de recomeçar a andar, reparou num rasto de pneus que partia de meia-dúzia de metros mais acima. Parecia proveniente de pequenas rodas,  talvez de um dos velhos Mini-Mokes que existiam na ilha. O rasto conduzia às dunas, perdendo-se na linha da vegetação rala que dividia a praia de uma zona de vinhas. Mas meteu-se finalmente a caminho em passo acelerado. Demorou pouco tempo.

No restaurante, ainda um pouco ofegante, explicou a uma senhora estrangeira, uma loura autêntica de meia-idade,  que parecia ser a proprietária do estabelecimento,  o que se passava e esta, um pouco assustada, os olhos azuis muito abertos, ouvindo falar num morto,  disponibilizou de imediato o telefone. Amaral ligou o número de emergência e, posto em contacto com a Polícia, disse sucintamente o que acontecera, fornecendo todos os pormenores que lhe foram pedidos, nomeadamente quanto à localização do corpo.

Disseram-lhe que teria de ser a Polícia Marítima a tomar conta da ocorrência, por ser sua a jurisdição sobre a zona da praia,  mas que eles próprios fariam a participação e que iriam também contactar os Bombeiros r enviar uma ambulância. Pediram-lhe ainda para voltar ao local onde se encontrava o corpo,  para poder prestar declarações,  pois dentro de momentos o pessoal da Armada estaria ali presente.

Antes de regressar à praia,  António bebeu um café e apeteceu-lhe fumar um cigarro, mas resistiu estoicamente à tentação. Olhou a máquina colorida, oferecendo-se, descarada como uma rameira barata, mas não meteu as moedas. Voltou aos rochedos agora acompanhado por  Aníbal,  um jovem empregado do restaurante que autorizado pela patroa, por evidente curiosidade,  fez questão de o acompanhar. Verificou que os vinte minutos que demorara após o telefonema foram suficientes para que as autoridades chegassem.

Um oficial da Marinha e alguns marinheiros rodeavam o cadáver, fazendo fotografias, procurando vestígios e tomando notas. Aproximando-se do grupo, António disse-lhes ter sido ele quem telefonara a participar a ocorrência. O oficial da Marinha, uniformizado,  apertou-lhe a mão , apresentou-se:

– Paulo Fragoso, primeiro-tenente da Armada. – e fez  um breve aceno para o empregado do Pôr-do-Sol.

Ali na ilha, pelos vistos, toda a gente se conhecia.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO – Em Xuvalu não pode haver sobreviventes.

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