Segunda Parte
(conclusão)
Adensando este pano de fundo, há também que ter presente que o efeito agregado no médio prazo mais importante desencadeado pela Academia Sueca, independentemente da sua intenção, ao atribuir o Nobel a Hayek (1974), Friedman (1976), Stigler (1982), Becker (1992) e ao próprio Lucas (1995) foi a legitimação e reforço da propaganda da escola de Chicago como corrente hegemónica do pensamento económico contemporâneo. A impressionante lista de prémios Nobel sediados na Universidade de Chicago, ou com ela relacionados, reforçou extraordinariamente a credibilidade das teorias e praticas que acabaram por levar ao colapso dos mercados financeiros em Setembro de 2008. Assim, cabe também a Academia Sueca uma quota-parte de responsabilidade moral na propagação das falsas bases intelectuais que estão na origem da crise.
Neste contexto, ressoou largamente a pergunta invectiva que a Rainha Isabel de Inglaterra, em recente visita à London School of Economics, dirigiu aos economistas de todo o mundo: como foi possível não terem sido sequer capazes de perceber quaisquer sinais avisadores da crise explosiva que se avizinhava?
Raríssimos são os economistas de grande reputação que podem sobreviver a essa invectiva. Entre eles está, no reconhecimento geral, Robert Shiller que denunciou atempadamente factores determinantes da grande desordem em que estamos e estaremos por largo tempo enredados.
De facto, Robert Shiller não assistiu sentado à revolução de paradigma que Chicago lançou com a mesma aprovação, entusiástica ou apenas relutante, que caracterizou a maioria dos economistas. Com a excepção dos neo-Keynesianos e dos especialistas da psicologia aplicada à economia, renderam-se em massa ao magistério aguerrido dos teóricos das hipóteses de eficiência do mercado e das expectativas racionais.Isto e, ao paradigma do funcionamento auto-correctivo do mercado.
Pelo contrario,Robert Shiller, entre os fins das décadas 70 e 80, consagrou-se juntamente com Larry Summers, posteriormente penitente, como dos mais eficazes críticos da hipótese de eficiência do mercado. Contrariando a sua proposição chave – o preço de um activo reflecte, por si só, toda a informação determinante do seu valor intrínseco – produziu uma série de trabalhos sobre a volatilidade dos mercados que retiraram crédito à hipótese de Eugene Fama. Ficou célebre o juízo que emitiu a propósito do crash de Outubro de 1987: “a hipótese de eficiência do mercado é o erro mais notavel na história da teoria económica.“
A obra de referência de Eugene Fama sobre a hipótese de eficiência do mercado data de 1970. Ainda hoje tem devotos indefectíveis Apesar de ataques tão devastadores como o acima mencionado. Apesar da violência demolidora da actual crise. Os erros que aproveitam aos senhores do mundo tendem a resistir para alem do colapso das construções que promoveram , o que esta longe de ser apenas natural ou inocente. Mas perante evidencia esmagadora em sentido oposto, essa tentativa não tem curso fácil. Em 2005, Eugene Fama foi o primeiro galardoado com o prestigioso Deutsche Bank Prize in Financial Economics por toda a sua obra mas, muito em especial, pelas suas teorias sobre a eficiência do mercado e o processamento da informação pelo mercado, “factores fundamentais em quase todos os aspectos da moderna investigação empírica financeira”. Em 2008 ainda recebeu o Morgan Stanley – American Finance Association Award. Mas em 2009 aqueles que procuraram ver-lhe atribuído o Nobel da Economia esbarraram com o espanto geral. Em contrapartida, Robert Shiller recebeu a terceira atribuição do Deutsche Bank Prize em 2009, pela sua investigação e propostas sobre risco, volatilidade do mercado financeiro, bolhas e crises. Extremamente significativo. De facto, não e dispiciendo que o prémio fosse para Robert Shiller. Ou seja, o oposto de Eugene Fama,tanto no plano teórico como pratico. Sendo certo que a profissão económica não vislumbrou ainda um novo paradigma, não é menos certo que ninguém pode já esconder o colapso do paradigma de Chicago: o rei vai nu.
Em relação à teoria das expectativas racionais, também não sofre dúvida o contraste entre os quadros mentais de Robert Shiller e o dos seguidores de Robert Lucas. A magica lucasiana retira qualquer utilidade à intervenção do Estado. A racionalidade dos agentes económicos antecipa e anula de imediato qualquer acção intencional do Estado. Mais, num mundo minimamente aderente às teses de Fama e Lucas o mercado age e reage no sentido de impossibilitar uma eventual crise financeira.
Não é que os pais criadores do paradigma agora exposto a nu não se tenham apercebido de que a criatura estava sendo chamada abusivamente a aplicacoes para alem de limitações deles bem conhecidas, ao menos em consequência de algumas críticas. Mas Robert Merton e Myron Scholes, ambos prémios Nobel por contribuições quantitativas à tecnologia da gestão financeira e ambos vítimas das suas próprias teorias no caso do espectacular falhanço da Long-Term Capital Management em 1998, são hoje muito mais claros a lembrar essas limitações do que o foram no passado. Também Eugene Fama tem vindo a reduzir a ambição da sua hipótese e parece ter caído em crise de conviccoes,a ponto de ter renunciado a dar um dos seus cursos (Corporate Finance) na Universidade de Chicago. Por seu lado, Robert Lucas admitiu em 2003 que a teoria das expectativas racionais estava longe de se acomodar bem à explicação do que se passa na área financeira, designadamente a crises como a do Sudeste Asiático. O que não o impediu de proclamar quase na mesma altura, no discurso presidencial da Associação Económica Americana, que “o problema central da depressão-prevenção foi resolvido para todos os efeitos práticos”.
Mas o pior não sao as teorias em si mesmo, como construcoes académicas. O pior das hipóteses da eficiência do mercado e das expectativas racionais é o facto de os seus criadores terem permitido, senão mesmo apadrinhado a pretensa filiacao científica da aplicação que delas se fez ,por vezes nas versões mais simplistas e absurdas.Eis uma decisiva questão que a ética universitária não pode continuar a ignorar.
O pensamento de Robert Shiller tem raízes, em primeiro lugar, em Keynes mas também em Minsky, Kindlebergher e Galbraith. Em todos eles o factor humano, ao jeito dos animal spirits, é componente essencial da formação e desenvolvimento das grandes crises financeiras. Robert Shiller e Richard Thaler ,tambem da Business School da Universidade de Chicago mas radicalmente oposto a Eugene Fama,organizam desde 1991 o workshop do National Bureau of Economic Research sobre a interacção das investigações psicológicas e financeiras (Behavioral Finance). Uma das áreas mais frutíferas diz respeito à aplicação das teorias de Daniel Kahneman (laureado com o prémio Nobel em 2002) e Amos Tversky. No seu entendimento, as pessoas não tomam decisões seguindo uma racionalidade abstracta mas sim ponderando influências de contexto e ambiente associadas ao problema em análise.
Foi segundo um enquadramento similar que Robert Shiller estudou o mercado de habitação nos Estados Unidos e a formação das bolhas dot.com e subprime. Apoiado nessas análises Robert Shiller publicou Irratiional Exuberance, cuja 2ª edição, de 2004, foi particularmente insistente na denúncia da ameaça da bolha que veio a rebentar três anos depois.
Robert Shiller distingue-se igualmente pela preocupação de propor reformas institucionais que permitam assegurar a adequada cobertura dos riscos em que incorre o cidadão comum ao longo da sua vida. É na presente obra que mais se manifesta a amadurecida convergência dessas suas alavancas do seu pensamento.
A preocupação de Robert Shiller com a democratização da cobertura da maior parte dos riscos que afectam os indivíduos e as famílias encontra-se bem documentada em livro seu ganhador de um prémio, Macromarkets: Creating Institutions for Managing Society’s Largest Risks (1993). Nele podemos encontrar as ideias seminais das propostas que formam o capítulo 6 da presente obra. Na mesma senda esta também The New Finamcial Order: Risk in the 21st Century, de 2003.
Nas páginas que o leitor vai encontrar a seguir não está apenas uma análise brilhante da dinâmica da crise do subprime. Está sobretudo um conjunto de propostas altamente inovadoras e ousadas em regime capitalista. O seu objectivo é inovar no campo institucional de modo a construir uma economia financeira regulada em função de princípios de gestão de risco à escala das legítimas aspirações humanas, individuais e colectivas. Para Shiller é preciso seguir a lição da ruptura do New Deal Rooseveltiano, colocando-se no nosso tempo a necessidade de grandes reformas institucionais ainda mais intensamente que nos anos 30 do século passado.
Sem surpresa, a chave da saída da crise para Shiller é a convergência dessa preocupação com a erradicação dos factores de crise que as teorias de eficiência do mercado e das expectativas racionais alimentaram tão nefastamente. No fundo, o retorno a Keynes, fazendo intervir atempada e extensamente o Estado para regular o mercado salvando-o da sua instabilidade intrínseca. Retorno assente na muito mais larga compreensão do papel dos animal spirits que a interacção das investigações psicológicas e económicas nos permite hoje em dia alcançar. É o que se explana pormenorizada na obra que publicou, já em 2009, com Akerlof, prémio Nobel, com o significativo título, Animal Spirits: How Human Psycology Drives the Economy, and Why it Mathers for Global Capitalism.
Não é preciso depositar a nossa fé no capitalismo global para ler Shiller com o maior proveito e gosto. Muitas das suas propostas, mesmo algumas bastante inovadoras, são perfeitamente aceitáveis para quem as analise despido de armaduras de seita. Outras serão discutíveis ou julgadas demasiado impraticáveis para sociedades que tendem a resignar-se à continuação da subordinação da política de todos aos interesses e privilégios de alguns que comanda as praças financeiras globais. Mas importa discutir e difundir as propostas de Shiller,pelo seu mérito próprio, acima de tudo. Convém também ter presente a ajuda que nos poderão dar para enfrentar aqueles que provocaram a crise mas pretendem agora capturar o comando das reformas pós-crise depois de terem sido consolados pela hipoteca sem limites da economia pública, isto e, pela hipoteca sem limites da economia do cidadão comum e do contribuinte médio, à salvação dos seus impérios privados.
A tradução desta obra não podia ser mais oportuna.
João Cravinho
Outubro de 2009
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Para ler a Primeira Parte do Prefácio de João Cravinho à obra de Robert J. Shiller, Subprime – o crédito hipotecário de alto risco, e a Nota Introdutória de Júlio Marques Mota vá a:
