MUNDO CÃO – MANUEL LANDEIRO – por José Goulão

Até agora jamais ouvira falar dele, não havia nenhuma razão especial para isso, é apenas um dos milhões de portugueses que Portugal – melhor dizendo, o Estado Português SA –  trata mal. Soube de Manuel Landeiro por causa de um grupo de portugueses e imigrantes de outras nacionalidades despejados de uma residência precária no Luxemburgo apenas porque sim, porque ao Estado luxemburguês apeteceu, provavelmente porque terá em mente as chorudas mais valias a obter com edifícios e terrenos obstruídos com a presença desses tugas que, a bem dizer, não têm onde cair mortos, melhor seja que caiam noutro sítio. Não faço esta suposição por maldade ou má vontade, a verdade é que outros portugueses foram despejados há um ano de um lar semelhante, com o argumento de que as instalações eram necessárias para novos imigrantes, e continua vazio. Quando se sabe que os espaços imobiliários no Luxemburgo andam por oito mil euros o metro quadrado nem é preciso ter qualquer maldade no espírito para fazer a dita dedução.

Manuel Landeiro foi desses portugueses despejados há um ano e acolhe-se agora, por 250 euros mensais, num tugúrio arrendado por ele e mais de uma dezena de outros imigrantes, partilhando um sanitário, um chuveiro, um fogão de quatro bicos numa cozinha com acessos a céu aberto. Nada que espante na terceira geração depois dos bidonville nos arredores de Paris. A Europa tornou-se “um império sem ser imperial”, como gosta de dizer o senhor presidente da Comissão Europeia, compatriota de Manuel Landeiro, mas isso é só para uns poucos.

Porque Manuel Landeiro deixou a sua terra no Gerês aos 53 anos quando o patrão deixou de lhe pagar pelo quarto mês consecutivo. E como não é homem “de chomâge”, porque desemprego terá sido a primeira palavra que aprendeu com os francófonos do Luxemburgo, meteu pés a caminho deixando a família entregue ao regime da troika. Em boa verdade, se tivesse ficado na pátria, com subsídio de desemprego, estaria agora a receber a cartinha da Srª Dª ministra Maria Luís exigindo-lhe os seis por cento a mais com que abusivamente, no entender da troika e assalariados, os madraços dos desempregados se abotoaram.

É melhor agora a vida do emigrante Manuel Landeiro? Deixo isso à vossa consideração daqui por umas linhas. Arranjou trabalho na construção civil em regime de contratos semanais e sem quaisquer direitos sociais. Não pode arrendar um estúdio, mesmo acanhado, para pelo menos chamar a mulher, porque o dinheiro não chega e mesmo que chegasse nenhum senhorio lhe abriria as portas porque não tem contrato fixo e qualquer proprietário sabe que Manuel e outros Manuéis trabalham hoje e para a semana não se sabe. Então não haveriam de ter ouvido falar em liberalização do mercado de trabalho e nos minijobs tão queridos da Srª Merkel, palavras finas para dizer que na fina e impante Europa o direito ao trabalho se transformou na mendicância pelo biscate?

Na União Europeia é assim. Enquanto em França o governo socialista do Sr. Hollande restaura institucionalmente a perseguição aos ciganos, enquanto à vista das costas europeias centenas de infortunados insistem em tentar sobreviver apostando no risco da morte por afogamento para fugir à morte certa pela fome ou a guerra, Manuel Landeiro, português no seu tugúrio luxemburguês, acha que o tempo em que não está nas obras é para ele como uma cadeia, que nem a harmónica nem o rádio amenizam.

Assim vai a vida nas terras da paz e dos direitos humanos.

1 Comment

Leave a Reply