A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 18 – por Sérgio Madeira

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Capítulo dezoito

Nos capítulos anteriores Em Abril de 2009,  António Amaral, sofrendo um leve acidente cardiovascular, é aconselhado por Alfredo Nunes, seu cardiologista e companheiro das lutas académicas, a ir repousar duas ou três semanas para Porto Santo. Ao fazer o seu jogging matinal pela praia, tropeça no cadáver de um homem morto tiro. Enquanto as investigações decorrem. António e sua mulher, Cecília, vão conhecendo a ilha e estabelecendo amizades. Um flashback leva-nos a 1972, auma aldeida do distrito de Tete, em Moçambique, alvo de uma operação militar por se suspeitar ser o abrigo de um líder da guerrilha. António e Cecília gozam a tranquilidade de Porto Santo – em Xuvalu, consumado o massacre, as tensões eclodem entre militares e agentes da polícia política.

Só havia ruínas, cadáveres e fogo. Colunas de fumo erguiam-se das palhotas ardidas. As rimas de cadáveres não tinham também sido totalmente consumidas pelo fogo.

Quando, já quase à noite, chegaram os helicópteros e os soldados começaram a embarcar, Lopes disse para o capitão:

– E o padre Manuel? – Câncio sorriu:

 – Estava a ver que se esqueciam. – e acrecentou – acho que temos de lhe dar o tratamento.

O capitão Alves perguntou:

 – O tratamento? Qual tratamento?

  – O que é que o capitão acha?

Lopes, ajudado por um soldado fora buscar o padre. Estava com um ar mísero, a batina branca manchada, os cabelos desgrenhados.

 Alves deu ordem para o desamarrarem. Quando viu Nachawi empunhar a Walther, gritou-lhe:

– Nem pense! Lopes, Sousa, afinal sempre vamos fuzilar estes dois filhos da puta!  – Alves estava descontrolado – Um grupo de soldados rodeou os dois pides. – Todos são testemunhas de que iam assassinar o padre!

Os estalidos das patilhas dos fechos de segurança avisaram Nachawi e Câncio de que não tinham qualquer possibilidade. O sabre de Sousa estava encostado ao pescoço taurino do inspector.

Nachawi que não largara a arma, moveu-se e Lopes aproveitou para vingar o insulto de meses atrás –  desferiu uma brutal coronhada no rosto de Nachawi, junto de uma têmpora. O negro cambaleou e largou a pistola. Câncio, pálido, tentou erguer os braços em sinal de rendição. Sousa carregou um pouco mais na pequena baioneta, mostrando que não estava a brincar:

 – Pronto! Pronto!  O capitão é que manda – Câncio, apesar do medo, conseguiu manter a calma – depois não se queixem se houver problemas.

Lopes, vendo que a cena estava a terminar e antes que a oportunidade passasse, deu um violento pontapé numa perna de Nachawi. Ouviu-se um estalo. Uma fractura. Gritou-lhe:

 – Vá panasca, não dizes nada?

  Nachawi era de facto um duro. O olho direito começava a ficar tapado pelo inchaço, o perónio fracturado devia doer. Mas nem um lamento soltou. Continuava a rir-se para Lopes.

   O Câncio com voz calma,  retomou as rédeas da situação. Voltou-se para o padre Manuel que tremia de medo e de emoção:

   – Que idade tem, padre?

   – Veinte y tres años, señor. – Respondeu Manuel.

   – Um jovem na flor da idade… e depois com ar pensativo acrescentou – vai querer viver muitos mais.

  O padre ergueu os olhos:

       – Los que Dios quiera, señor.

  – Sabe, padre, às vezes Deus delega as Suas decisões. Neste caso, encarregou-me a mim de resolver se o padre fica connosco ou se vai para junto Dele.

   O dominicano ficou em silêncio e o inspector perguntou:

   – O senhor não viu nada, pois não.

   – No, no he visto nada.

  – O que ouviu foi um combate duríssimo que travámos contra os terroristas da Frelimo. – Olhou o rapaz de frente – Verdad?

 – Sí, por supuesto… – balbuciou Manuel.

 – Levem o padre para o helicóptero – e para Nachawi – pede para te porem um penso no olho e umas talas na perna. – acrescentou ainda – pede desculpa ao tenente.

  – Desculpa de quê? – perguntou incrédulo Nachawi com o olho já completamente fechado pelo inchaço.

 – Porque o deves ter ofendido alguma vez. Vá, pede-lhe desculpa.

 – Desculpa tenente …– disse Nachawi com um sorriso que lhe pôs a dentadura branca à vista – Câncio afastou-se para junto do capitão – e Nachawi – ciciou: – Desculpa tenente paneleiro.

 Lopes acenou levemente com a cabeça:

– Estás perdoado…  filho de uma puta. – e acrescentou com um sorriso – Se te volto a apanhar, estás morto,  panasca preto.

O negro contorceu o rosto numa gargalhada.

 –  Panasca, eu?

 – Não? Pensas que não sei que ali o inspector te  anda a enrabar ? –

O sorriso morreu no rosto de Nachawi. Perfilou-se, fez uma continência perfeita. Quase gritou.

– Meu tenente, foi uma honra servir sob as suas ordens – e baixando a voz – Quando te apanhar, tenente paneleiro, mato-te.

Lopes, sorrindo também, correspondeu à continência.

Câncio, rindo-se, comentou para o capitão Alves que, estupefacto, seguira, não o diálogo, que não pudera ouvir, mas as expressões e a linguagem gestual de uma aparente cordialidade.

–  É bonito ver as coisas acabar bem. O senhor nem sabe como estas cenas familiares me comovem.

E encaminharam-se todos para o helicóptero. Nachawi coxeando e o padre Manuel cambaleando, ainda com as pernas dormentes pelas longas horas que as tivera amarradas. O capitão Alves ajudou-o a caminhar.

 A noite caiu rapidamente sobre o local onde ainda hora antes existia a aldeia de Xuwalu. Colunas de fumo erguiam-se das palhotas ardidas. As rimas de cadáveres não tinham também sido totalmente consumidas pelo fogo.

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